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Cata-Ventos: Elogiar e autoelogiar

Costa Alves - 02/02/2017 - 10:37

Elogiar é louvar, aplaudir, gabar, enaltecer, lisongear, até vangloriar e adular. Se para tal estivermos concertados, também é bajular e escovar os sapatos ou untar as mãos de quem se esperam alvíssaras. É tecer uma extensa manta de encómios, panegíricos, apologias e, ainda, prestar culto à personalidade de quem está mais alto. 
Sabemos muito acerca deste assunto e raramente encontramos tantos sinónimos ou tantas e subtis variantes de sentidos para designar uma atitude que vem do mais fundo dos tempos do relacionamento humano. No século I, já Séneca avisava: “Podes conhecer o espírito de qualquer pessoa, se observares como ela se comporta ao elogiar e receber elogios.”
No elogio espalham-se loas e elegias, proferem-se sermões laudatórios e, claro, subrepticiamente, promovem-se autoelogios como rampas que conduzem a pódios  muito desejados. E quantas vezes temos visto, inclusive em nós, elogiar como forma e arte (e artimanha) de autoelogiar como se se tratasse, apenas, de elogiar… Vergílio Ferreira captava outras motivações: “A melhor forma de te não dizerem pequeno é dizeres dos outros que são grandes. Sobretudo se for mentira.” Sobretudo se for mentira, sublinho.
Os exemplos esvoaçam como gralhas pelos ecrãs, nos próprios estúdios ou nos anfiteatros políticos e futebolísticos que lhes dão palco e matéria exibicional. Como resultado, conseguem que os reproduzamos como figurinos em todas as esferas anónimas da vida. Não sabem atuar de outra maneira em todas as linhas: elogios,  autoelogios (muitos autoelogios!), feiras de vaidades, ataques e contra-ataques com golos e autogolos, tiros no pé, sapos engolidos, impropérios ou discursos de chinelas na voz. Já sabemos do muito mais que está à nossa espera, agora que se aproximam eleições. Freud esmiuçava esta dialética concluindo: “Contra os ataques é possível defender-nos: contra o elogio não se pode fazer nada.” 
O autoelogio é uma exaltação amorosa de nós próprios ou da tribo que nos convém, uma inebriação pelas nossas pretensas qualidades, uma exibição de autoestima, sincera ou decorativa, elevada a uma enésima potência. E, claro, quando assim é, e em tantos campos vivemos disso, apenas podemos enfrentá-lo com a mordacidade de séculos do adagiário e responder: “Gaba-te, cesta!”. Ou, com ainda mais rude sinceridade: “Gaba-te, cesta rota, que vais para a vindima!”. Ou, ainda mais prosaicamente: “grande gabador, pequeno fazedor.”
Já que puxei o adagiário ao assunto vale a pena convocá-lo outra vez para iluminar esta área tão obscurecida dos nossos costumes inspirados no socialmente (costumamos dizer “politicamente”) correto dominado por inundações televisivas. Ora atente nesta sentença secular: “Elogio em boca própria é vitupério”. 
Vitupério é um vocábulo com origem no latim mas, hoje, também abandonado. Aplica-se para caraterizar um ato vergonhoso, infame, indigno, insultuoso, ofensivo, injurioso, repreensível, condenável, censurável, conforme o grau de intensidade ou a extensão do ato danoso. Também neste campo, o nosso idioma oferece matizes variegados (outra palavra que deitámos fora). 
Einstein tinha consciência da transitoriedade do valor do elogio - ele que era quem era e que ficará nos púlpitos da história da Ciência. Queixava-se de que “só me lisonjeiam enquanto não me torno incómodo”. E acrescentava: “no entanto, se tento servir algum fim que julguem prejudicá-los, passam imediatamente ao ultraje e à calúnia só para defenderem os seus interesses.” 
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