Aqui tem um livro(*) a que pode chegar recebendo uma garrafa de vinho. Ora desfaça o nó de um fio que forma uma espécie de cinta cor de vinho e receberá 16 folhas que abraçam o precioso néctar que está à sua espera dentro da garrafa. Estas parras de papel registam um vinho de palavras fermentadas pela embriaguez do amor. Embriaguez que se atinge bebendo vinhos de mulher em esferas de sentidos de que o vinho é metáfora propulsora.
Pode não ser um modo de apresentação inédito mas é novo e inovador. É da metafísica e da poética de surpreender com a delicadeza e a sensibilidade da poesia. Um livro abraçando uma garrafa de vinho com 77 poemas “para ler e degustar” e, para mais saborear, encher os olhos com desenhos de José Rodrigues.
Para Gonçalo Salvado, beber vinho e subir na escala do prazer que pode proporcionar é uma metáfora inspiradora e um contraponto face ao senso comum. É que não é o vinho que embriaga mas a “sede do teu corpo” pois, “por mais que beba,/ não me embriago.” Ainda mais explicitamente: “toda a noite bebi vinho./ Mas foi o teu corpo/ que me embriagou.” O fascínio socialmente associado ao vinho, como saída embriagadora e como escadaria para um estado de euforia, é desmentido na poesia de Gonçalo Salvado: “o vinho desembriaga/ depois de beijar/ teus lábios.”
Baco adora o excesso; a ebriedade é o seu deleite, o objeto e o objetivo. Temos essa cultura. Vinho é, tão só, a conclusão de um processo em que intervêm na vinha, terra, água e sol. O senso comum não acompanha a transmigração metafórica de Gonçalo Salvado: “As vinhas estão cheias de frutos/ que beberam do teu corpo o sol.” Baco só encontra sabores nos frutos do excesso, no sol que entra nas uvas e conduz à ebriedade e esta é apenas um estado degradado, mas inspirador, da elevada embriaguez amorosa que o autor poetiza.
O poeta vive em estado de permanente “Duplo Esplendor” (título de um livro seu de 2008) em que a embriaguez amorosa e a embriaguez da criação poética se fundem gerando um duplo esplendor em que a ingestão de vinho figura como pretexto. Fala de vinho mas, na verdade, fala de um vinho outro, um vinho coado por outros filtros, fermentado por outros sóis e noutras atmosferas e elevado exponencialmente ao rubro por outros processos: “Pudesse o vinho conferir ao meu corpo/ a embriaguez que me dão tuas carícias.” Ou: “Bebi do teu corpo./ Dependente/ de mais vinho fiquei.”
O vinho é, na obra poética de Gonçalo Salvado, uma metáfora sobre sabores do êxtase masculino na relação com o feminino. Por vezes, muda de campo imaginando-se a oferecer à mulher o mesmo êxtase de embriaguez que dela recebe: “Sou vinho em teu cálice/ bebe-me.” Transforma-se o amador entregando o seu vinho à mulher amada e realizando uma transfusão completa: “Tu me bebes como vinho./ E, ao beberes-me,/ em mel/ te convertes/ para mim.”
Maria João Fernandes carateriza Gonçalo Salvado, em texto inserido na contracapa, como “poeta exclusivo do erótico e do feminino” e este livro sobre o vinho do vinho do amor é mais um passo no seu percurso de permanente fidelidade temática.
(*) “Rubaiyat, Poemas do Amor e do Vinho”; A23 Edições, 2017. Rubaiyat é o título de uma seleção de poemas, atribuídos a Omar Khayyam (1048-1131), poeta, matemático e astrónomo persa. Um ruba’i é uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada; rubaiyat (quarteto) deriva da palavra “quatro” em árabe. Gonçalo Salvado encontra aqui inspiração.
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