Quem pesquisa o que se sabe, como se formaram e evoluíram os nomes das nossas terras fica frustrado. Para quase todos há mais do que uma hipótese e quase nenhuma certificada. Raramente se impõe uma explicação definitiva e, só em poucos casos, podemos intuir o significado que teve na origem.
Permitam, então, que passeie por aí brincando com os nomes de algumas aldeias espalhadas pelo concelho de Castelo Branco. Nomes que abrem horizontes de beleza e significados. Começo pelo topónimo desta minha cidade natal. Já sabemos que ninguém sabe decifrá-lo com rigor e certificá-lo. Mas gosto de “Castraleuca”, nome que na infância era, simplesmente, um nome de fábrica que produzia pirolitos e que as novas gerações de refrigerantes gasosos atiraram para o saco do esquecimento.
Meto-me pelos caminhos e os nomes brotam dos campos como árvores solitárias a anunciar um tempo acabado. Aqui é “Salgueiro”, ali é “Juncal” e, quase pegado, é “Freixial”. Convido-vos a saborear pinturas murais nestas duas aldeias. Mais umas voltas por este rincão de despovoados e chego a “Sobral” e, depois, a “Louriçal”. Todos são “do Campo”. A ruralidade já não é o que era e não distingo os maciços vegetais que inspiraram a sua eleição como topónimos. Por ali, rondavam aves de rapina e o “Açor” afixou o seu “Ninho” no cocuruto de altas árvores também desaparecidas.
Como que em voo de ave, aterro em “Chão da Vã”. Em vão, ficou a Vã e não encontro a sua história de pessoa ingloriosa, vazia, oca, frívola, fútil, falsa ou fantástica na beleza do nome deste povoamento em chão de vã glória sem vanglória. Já no “Chão do Galego”, a conversa não tem muitas variantes. Também condenado à solidão, o Galego rivaliza com o Preto em capacidade de mourejar na busca de pão e de uma malga com qualquer alimento que ajude a sobreviver. Assim se partilharam séculos de vida e de história em transe de apagamento.
Se houver tempo, e dependendo de como os acasos saírem dos embrulhos da sorte, descobrirei uma “Taberna”, mesmo que “Seca”, à minha espera. Se a sede não sufocar, poderei descobrir, em “Lentiscais”, olivais que produzem uma variedade durázia de azeitonas que alimentava desabastecidos com pele de resistência.
Se ainda tiver fôlego, alcançarei antigos campos abastados de “Cebolais” capazes de socorrer qualquer desejo gastronómico. Tudo dependerá das “Benquerenças” que alcançarei e que tanto acalentam o ânimo. Pergunto-me: como é que os fundadores desta aldeia se criaram e evoluíram com anseios desta natureza? Terão escapado das malquerenças que dominaram os séculos e declarado, para todo o sempre, quererem viver de outra maneira com as suas benquerenças?
Partir é um desafio. Vou de S. Vicente da Beira para Almaceda e desvio-me quando deparo com o anúncio de “Partida”. Entro no “Pequeno Lugar” e percorro “a Ribeirinha” que florescem abençoando qualquer chegada. Aqui podemos renascer, multiplicar sentidos e voltar de partida para outros céus.
Os céus de “Camões”. Que posso imaginar, ou supor, ou inventar sobre a origem do nome deste lugar? Encontrarei outros nomes por esse vasto mundo (até e “além da Taprobana”) que o nosso épico eternizou no imaginário português e que tantas conjeturas também suscitam.
Como soletrava o poeta moçambicano José Craveirinha, “Inhamússua, Mutamba, Massangulo!!!/ E outros nomes da minha terra/ Afluem doces e altivos na memória filial/ E na exata pronúncia desnudo-lhes a beleza.” A beleza dos nomes. Seja onde for.