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Cata-Ventos: A canção raiana perdida

Costa Alves - 09/12/2016 - 9:37

Não sei se o leitor já viu e (se viu) saboreou com tempo o filme com este título projetado pela ADRACES - Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul. A ideia e a criação musical são de Tom Hamilton, músico inglês aqui radicado, a realização e direção de fotografia pertencem a Samuel Amaral, um cineasta com raízes familiares na região, e a montagem e edição vêm de Carlos Santos.
É um encontro singular de imagens com sons que ascendem do fundo do tempo itinerando, diria, pelas árvores sonoras, mais do que raízes, da música popular. Encontro, ora entre as pedras e casas de Monsanto ora chegando às Portas de Ródão, andarilhando pelo Rosmaninhal, por S. Miguel d’Acha ou pelo parque José Afonso em Malpica ou, a poucos quilómetros, pelo Tejo, com o único pescador que sobrevive naquelas solitárias vizinhanças.
Calcorreia inúmeras aldeias, vilas e a própria cidade de Castelo Branco, indagando, perscrutando memórias de labores, instrumentos, atividades, ritos religiosos e profanos, paisagens, animais, com os seus sons singulares ou/e misturados com elaborações humanas que geram criações musicais e entram na casa da nossa cultura de fundo. O filme faz-se com ela e por ela para um futuro com maior densidade histórica e cultural.
Tom Hamilton conduz-nos e interpreta a viagem; este músico inglês mergulhou nessa cultura sonora de fundo, compreendeu-a e recriou-a. Samuel Amaral escreve uma narrativa fílmica afetiva e afetuosa, abre a câmara às pinturas da paisagem, à sensibilidade do olhar e da voz nos rostos e nos seus cantos, nos animais, nos objetos, nos passos que descobrem sons antigos de pedras, casas e sinos ou no dedilhar de cordas numa viola beiroa que consegue sonoridades diferentes das mais elaboradas violas de origem urbana.
O ecrã é vasto e fundo. Nele cabem cegonhas e chaminés; árvores na sua beleza solitária e nas suas agregações florestais; cabem vozes em rostos que se entregam afetuosamente ao que contam. Cabem danças, horizonte e animais adornados com instrumentos geradores de sons que aprofundamos e integramos como criação de todos nós.
Cabem lavadeiras que cantam com as águas das ribeiras. Cabem ruínas vivificadas do que noutro tempo teve vida, lutos, sons de teares, torres, sinos que acordam para o dia e para a morte, música de água a deslizar entre pedras misturando-se, numa montagem criativa, com as composições de Tom Hamilton. Neste filme, tudo canta: pessoas e instrumentos musicais e água e balidos e aves e amola-tesouras e outros sinos que obedecem a mecanismos de relojoaria. E pastores que “falam com os seus rebanhos e parece uma forma de cantar”, como diz Tom Hamilton.
Cabem concertos de pardais, vozes que imitam perdizes e se harmonizam com melodias flauteadas, raízes sonoras que aqui brotaram e se fizeram árvores de sons que já não cantam nestes nossos (outros) quotidianos mas que aconteceram, permanecem e  interpelam o que estamos a esquecer, interpelam o que somos e para onde vamos, apesar da deceção de quem, com adufes e pandeiretas ainda nas mãos, ressuscita zamburras do fundo do tempo e reconhece a solidão do seu canto.
As imagens têm esta música dentro delas, fundem-se num documento que fala com uma só voz de imagens, sons e música para que continue como história e cultura dentro de nós.
Este filme devia andar de terra em terra palmilhando toda a região.
(Post Scriptum. Se tiver acesso ao “You Tube”, pode vê-lo digitando “ADRACES - Canção Raiana Perdida”.)

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