Provavelmente irei escandalizar alguém se disser que também sou de cor. Sou de cor e ficava abaladíssimo se não fosse. Cor clara, um tanto rosada ou ligeiramente acastanhada – há por aqui antigos e complexos traços morenos de muitas aragens, tantas foram as que atravessaram a nossa História até me gerarem.
Mas, branco branco não sou e ainda bem. Sê-lo-ia se a cor da minha pele não se distanciasse tanto da cor da cal ou da folha em que escrevo. Branca é a cara (assim pintada) do palhaço rico que gozava com o palhaço pobre dos circos que, na minha infância, acampavam na (hoje) avenida Primeiro de Maio. Branco é o que a galinha põe. Branco é o cavalo branco de Napoleão. Branco de cor da pele não conheço.
Confesso que não sei como expressar-me. Se digo, negro, saliento uma cor da pele que, na verdade, se apresenta entre matizes de castanha e muito escura. Neste caso, “nigger” seria uma designação considerada insultuosa nos EUA. Se adotasse a preferência norte-americana por “black” (preto), a ofensa seria sentida aqui. Estranho, não é?
Mas, vejam como são as coisas. De um momento para o outro, depois do assassínio de George Floyd, os nossos canais de televisão passaram a dizer afro-americano onde antes pronunciavam negro americano. Todos, jornalistas e comentadores, passaram a utilizar em uníssono essa designação.
Continuo confundido. Se digo afro-americano, distingo as origens, em muitos casos seculares, da maior parte dos seus ascendentes. Isto é, acentuo a discriminação, como quem duvida da nacionalidade americana dos descendentes dos escravos capturados em África. E a discriminação é tal que não passaria pela cabeça das nossas estações de televisão referenciarem a ascendência anglo-americana de grande parte da população dos EUA. Muito menos, as fontes natais, anglo e germano-americanas, dos pais de Trump. E, se a notícia também englobasse Melania Trump, poderiam apresentar o casal como euro-americano, seguindo a linha da designação afro-americana que passaram a popularizar.
Recordo que, até ao século XVI, o território era habitado exclusivamente por pessoas que crismámos de índios – mais um equívoco resultante da aventura de Colón (Colombo, como dizemos cá) convencido de que era o caminho da Índia que ali, tão longe, julgava estar. Para não convocar mais equívocos, nem quero falar das persistentes interrogações sobre a naturalidade genovesa do navegador.
Na minha adolescência, fartei-me de ler livros e ver filmes de caubóis. Tratavam os nativos por “peles-vermelhas” e eram implacáveis na conquista dos espaços em que eles viviam. Aqui, “caras-pálidas”, almejamos atingir a cor do bronze quando a exposição demorada ao sol causa rubores e semelhanças com tonalidades que, diga-se de passagem, não têm relação cromática com essa liga metálica. Equívocos atrás de equívocos.
Já agora, não esqueço que até houve quem quisesse estender a marca física das cores à cor do cabelo: “geração grisalha” (mal)tratada como “peste grisalha”. Foi há poucos anos, aqui, no tal jardim à beira-mar plantado com tantas cores nos campos, nas capas dos livros, no cabelo e na pele das pessoas.
Bem sei que esta conversa sobre equívocos da cor da pele navega apenas à superfície da doença histórica da forma eurocêntrica (inclui os EUA) de interpretar, estar e dominar no mundo.
Enfim, lembro a preciosa lição de António Gedeão sobre a “Lágrima de preta”: “Nem sinais de negro,/ nem vestígios de ódio./ Água (quase tudo)/ e cloreto de sódio.”