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Cata-Ventos: A desconfinar na praia?

Costa Alves - 04/06/2020 - 10:25

E cá estou eu a prevaricar. Tinha prometido mudar de assunto, mas o Presidente da República (PR) alterou-me os planos. Começo esta prosa no domingo, 24 de maio, um dia com esplendores de verão e com massivos exercícios balneares gostosamente reportados por tudo o que é televisão. Pergunto-me: estas excursões não estavam decididas para começarem, com muitas cautelas, dúvidas, medos, reservas, apenas depois de amanhã, 6 de junho? Sim. E com normas carregadas de controlos de acessos e lotações, avisos “semaforizados”, distâncias entre toldos e entre pessoas, policiamentos, sei lá que mais? Sim. 

Estávamos nós à espera de como seria a vida nas praias a partir do próximo sábado, 6 de junho, e, com antecedência de duas semanas, deparamo-nos com estas reportagens televisivas em modo direto documentando a ida do PR a banhos, em Cascais. Realmente, nada melhor para anteciparem o verão balnear e realçar tudo o que o presidente diz e faz. E o povo banhista nem precisou de convite; respondeu como se fosse a abertura da época balnear do ano passado. 

Dei comigo a congeminar uma súplica para que o Primeiro Ministro (PM) ponha o PR na ordem. Então não é que, talvez por os seus modos e indumentária terem sido tão elogiados pela imprensa espanhola, o estou a ver a dar o exemplo desconfinamentador de se espraiar nas águas atlânticas? Com todas as televisões a aplaudir e, claro, a tecerem hossanas para “nuestros hermanos” verem? Exemplo que, naturalmente, é seguido por qualquer português que se preze, religioso de sol e praia; até numa fluvial de Coimbra se amontoavam, como se estivessem em pleno agosto escaldante sem Covid. Continuando a súplica ao PM, ia propor-lhe, como castigo, que convidasse o PR a molhar-se noutras águas. Não nas do (poluído) Tejo em frente ao Cais das Colunas de aqui há anos, quando tinha em mira ser eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mas, por exemplo, em Vila Velha de Ródão de onde vêm outra vez mais sujidades. Ou, mesmo, que nadasse para montante, já no Tejo Internacional, e se demorasse nas águas cultivadas de azola - uma planta aquática invasora que cria um exótico ambiente pantanoso de selva fluvial. Sempre estaria melhor do que a desconfinar-se na praia de Cascais.

Estava eu embalado a equacionar estas queixas ao PM e não é que um outro canal (ao arrepio daquele que só tinha olhinhos para os mergulhos do PR) apanhou o PM e sua esposa a posarem para as areias da Praia da Princesa na Costa de Caparica?! Descontraidamente, comia uma maçã acompanhando as movimentações de montes de gente que também quisera inaugurar o verão com antecedência. Não tenho palavras para descrever em que estado ficou a minha boca aberta, tão fechada tem ela andado desde que março começou a adoecer. Boca de parvo sem solução é, provavelmente, a melhor autofotografia (nem “selfie” sei dizer) que consigo tirar.

Qualquer dia ainda hei de vê-los a brincar às conchinhas na praia das eleições presidenciais. Já cá ando há muito tempo e não será agora que vou estranhar e levar a sério as contradições e leviandades de um PR e de um PM para televisões disseminarem e contagiarem. Apesar disso, confesso que uma das muitas gotas de tolerância, que ainda tenho, transbordou como uma lágrima sem remédio. Vê-los a desconfinarem-se assim, tão deliberadamente, tão liberalmente, fazendo o que eles próprios dizem temer que nós façamos, foi demais. 

Ai, ai, senhores PR e PM, no antigamente não escapavam sem um tau-tau nos meninos!...

 

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