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Cata-ventos A epidemia do Aquilo que é

Costa Alves - 29/08/2019 - 9:28

Ai leitor, o “aquilo que é” está-me atravessado. “Aquilo que é” para a direita, “aquilo que é” para a esquerda, o “aquilo que é” está em todas as bocas da televisão (“daquilo que é a televisão”). Não sei se já deu por isso, mas olhe que não estou a inventar e posso provar que o assunto já tem barbas crescidas nestas linhas que, desde 2003, tentam catar ventos por aqui. Se ainda não notou, tome cuidado, pois já pode estar contaminado.
Ora ouça o primeiro-ministro. Não diz que vem falar sobre o estado da saúde, mas sobre “aquilo que é o estado da saúde”. Não desvendando enigmas sobre o “aquilo que é”, ficamos com água a crescer na boca para perceber os subentendidos que o misterioso “aquilo que é” deixa a pairar. Não se descose e, no entanto, diz a Gramática (julgo que ainda existe), trata-se de um pronome - usa-se em lugar do nome – e é demonstrativo. Por isso, tem obrigação de revelar e demonstrar. Mas não nos dá essa satisfação.
Até o Presidente da República. Tão despachado no seu descontraído bem-falante, televisualmente muito treinado, também ele usa a bengala do “aquilo que é”. Realmente, não basta ter de cumprir a Constituição: tem de cumprir “aquilo que é a Constituição”. Só me falta apanhá-lo a designar-se como “aquilo que é o Presidente da República”. Pelo decorrer da viagem, desconfio que o vírus lá chegará.
Quase nenhum utilizador do idioma da televisão escapa a esta epidemia (queria dizer: “àquilo que é esta epidemia”). Até o Bruno Lage, Senhor, já vem com a mesma conversa! Não se trata de travar o futebol ofensivo do adversário, mas (pormenor crucial) de travar “aquilo que é o futebol ofensivo do adversário”. Um fulano que trouxe ar novo ao (detestável) falatório televisivo sobre futebol (perdão: “sobre aquilo que é o futebol”) e já se deixou levar pelos tiques do ar velho. Ai que não podemos acreditar na salvação!
E, agora que vem aí “aquilo que é a campanha eleitoral” (até eu, que não sou de modas, já falo assim), vêm os dirigentes partidários, os cabeças-de-lista (cabeças?) candidatos a deputados, os jornalistas, os opinadores por tudo e por nada (carapuça que também me assenta), os comentadores políticos e desportivos, todos a caminhar apoiando-se na mesma bengala do “aquilo que é”. Excluo, claro está, as exceções; há-as em todas as paisagens.
A propósito, gostaria que “aquilo que é a campanha eleitoral”, cujos anúncios já estrelejam por aí, não seja apenas o aquilo do costume: palavras de engatatão que entram e saem da sombra do ruído. Pelo meio, há bailaricos que fazem corar o ridículo e uns ditos debates televisivos em que batem e não debatem. Gostaria, mas a esperança anda pouco esperançada. 
A gente olha para as campanhas eleitorais e enfrenta autoelogios de egos a tamborilar ideias esfarrapadas e, pronto, dá para formar governos. São pobrezinhas, mas não as querem de outra maneira. A julgar pelos últimos anos, as pobrezitas andam a alimentar quem as quer usar para instalar muito menos democracia. Os ventos americanos, brasileiros, polacos, húngaros, italianos, entre os demais, vão-se espalhando “por aquilo que é esse vasto mundo” (tenho de continuar a dobrar a língua).
As epidemias combatem-se, mas não há serviço nacional da saúde idiomática que trate desta. No princípio, ainda guardei tolerância, mas acabei por verificar que o “aquilo que é” é, apenas, uma bengala que ajuda o tropeçar a parecer que não tropeça. É doença do (tele)falar; do falar da distância e da distância do falar. Mas pega-se.

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