Há muito que aspirava poder dar esta notícia em primeira mão: o maldito vírus tem tratamento. Tratamento arrasador. Não fica pedra sobre pedra.
Pensei assim: se a lixívia, a comezinha lixívia, mata o bicho, por que não bebê-la? Estava para aqui com uma tosse mal-amanhada e experimentei. Foi remédio santo. Qual analgésico, qual carapuça! Epidemiologistas? Imunologistas? Infecionologistas? Isso é conversa de gente ignorante que, por tudo e por nada, vem com histórias de ciências que não têm ciência nenhuma.
Telefonei logo ao Trump e ele nem queria acreditar na bem-aventurança que lhe veio desta parte do céu. Ele, que tinha tanta fé no darwinismo sanitário - morressem os que morressem, a (sua) economia, primeiro, na (sua) América, primeiro. Pois bem, mudou imediatamente de posição. Agora, queria salvar toda a gente, apesar de os mais desgraçados já terem ido para valas comuns em Nova Iorque. Bebeu, lambeu até ao último pingo e ficou ainda com mais falsete no falsete daquela voz que lhe dá, dizem, sensualidades de arrasar. Mesmo quando precisa de confinar-se, não consegue; tem de pagar com uns trocos amealhados pelas suas Trump Towers. Isto é que é ser Presidente!
Também lhe sugeri que, caso não gostasse do sabor da lixívia, sabor que, diga-se de passagem, não é grande coisa, podia dessedentar-se com detergente da loiça. Aquele amarelinho brilhante é uma tentação e não há que saber: mal chega aos intestinos do protozoário, extermina réplicas e tudo. Tenho para mim que aquela cor de cabelo espampanado, que nem um pavão esparvoado, lhe vem de ter abusado dos álcoois do detergente.
Mais lhe disse que, se quisesse provar o detergente da roupa, ficaria a saber que lava o cérebro ao vírus e põe a nu os estúpidos dos jornalistas que lhe fazem perguntas “hostis”, como ele diz.
Ora bem, estamos numa sociedade que gosta de estampar superficialidades em quase tudo o que desfila. Requintes da sofisticação. Para a Melania, o melhor seria um desinfetante muito bem perfumadinho e já o testei. Corta num instante o gasganete ao nanoanimal - que aquilo nem cara de marciano tem para a gente perceber o que é.
Para as pessoas mais esquisitas que não quiserem ir à bola com estes ingredientes, aconselhei um herbicida que poderão encontrar em qualquer jardim que se preze. Ou, então, num cerejal plantado à beirinha da albufeira da Marateca. Dissolve-se em água de plantas invasoras do Tejo e do Ponsul e o ataque nem precisa de aeronaves não tripuladas, nem de usar tantas bombas para arrasar o Próximo Oriente. Corta instantaneamente os braços ao maldito Corona que fica desasado de todo.
Depois de o experimentar nas relvas do Central Park, Trump aconselhou o discípulo favorito, um tal Bolsonaro, a que o aplicasse na Amazónia. Aquilo devasta índios e abre minas de ouro na antiga floresta. Em represália, o Corona mandou abrir valas comuns em Nova Iorque e em Manaus. Ainda dizem que isto não é uma guerra.
Muito contente com as minhas descobertas, contactou o Boris Johnson que também queria que o Corona atacasse quem pudesse para conseguir ganhos no negócio da imunidade. O diabo é que o vírus, bicho inteligente, antecipou-se e mandou o Boris para os cuidados intensivos e lá se foi a operação.
Foi por estas e outras alucinantes aventuras que me lembrei de experimentar tais drogas. Experimentar é forma de dizer. Não sou trouxa nenhum. E trouxa, embora demasiado rasca e grande filho da mãe para o meu gosto, o Trump também não é. Porventura, viram-no a beber aquilo? A mim, também não.