Um mês antes de os primeiros casos terem surgido em Wuhan, uma instituição científica americana divulgou uma simulação dos efeitos produzidos por um vírus (inventado) da família do Corona que veio a manifestar parecenças com os que a COVID-19 originou: grande transmissibilidade, número elevado de mortes, serviços de saúde sobrelotados, perturbação das cadeias de abastecimento e crise económico-social.
Esta revelação é feita por Debora MackKenzie num livro intitulado “Covid-19” e subintitulado “A pandemia que nunca devia ter acontecido / e como impedir a próxima” (editorial Presença, outubro 2020).
A autora, jornalista veterana da revista semanal “New Scientist”, tem acompanhado as principais situações epidémicas e pandémicas nos últimos 30 anos: SARS, MERS, Ébola, Nipah, Lissa, Hendra, SIDA, H1N1 e vários HxNy, Zica, doença das vacas loucas, gripes suína e aviária, febres do vale do Rift e de Lassa, febres hemorrágicas, chicungunha e, agora, a SARS-Cov-2.
Uma lista imensa de casos, uns até mais letais, embora menos transmissíveis, até agora, do que este novo Corona que nos caiu em cima.
Fomos apanhados desprevenidos? Segundo Debora MackKenzie, “com a SARS, fomos apanhados desprevenidos, mas no caso da COVID-19 sabíamos que estes vírus nos estavam a testar bem antes de esta pandemia ter sequer ocorrido.”
Na verdade, há muito que os especialistas tinham concluído que “os vírus corona de morcegos permanecem uma ameaça global substancial à saúde pública.”
E essa conclusão é transmitida, e sucessivamente renovada desde 2003, com a crise da SARS-Cov-1, à OMS e aos governos.
Além disso, assegura a autora, “já em 1992 os principais cientistas que estudavam as doenças infeciosas avisavam acerca das infeções emergentes.”
Sabemos o que foi acontecendo nos últimos 30 anos.
Diminuição progressiva do investimento em saúde pública, privatização de serviços de investigação e deslocalização, sobretudo para a China, da produção de fármacos e de vários equipamentos.
Em mira: lucros elevados provenientes de baixos salários e ausência de direitos sociais básicos.
Imperdoáveis e inesquecíveis, ficam as declarações iniciais da OMS e dos governos (incluindo o nosso) entre fevereiro e abril, de que a máscara não servia para quase nada.
Tinham deslocado a sua produção para a China; além da de ventiladores, zaragatoas e outros materiais.
E, quando lhes foi possível obter alguns fornecimentos, foram alterando as suas decisões para, agora, tornarem obrigatória a utilização das máscaras.
A contradição deixou marcas (e máscaras) de desconfiança que nunca foram cabalmente apagadas.
Conhecemos o que se passou em Wuhan.
“Todos os filmes-catástrofe começam com alguém a ignorar um cientista”, escreve Debora MackKenzie.
Já tinha acontecido em 2003 e 2009. Apesar desses avisos, a calamidade chegou e nenhum país estava preparado.
A globalização serve para umas coisas e para outras nem pensar. Nunca quiseram acreditar que continha estes perigos.
Nunca quiseram acreditar que devastar florestas criaria desequilíbrios em ecossistemas onde há inúmeros vírus que escolhem como hospedeiros animais que nelas vivem e que passaram a ter relação com humanos.
Nunca quiseram acreditar que o aquecimento global e as alterações que provoca no clima aumenta ainda mais os desequilíbrios.
A cultura antropocêntrica, a globalização e as práticas neoliberais dominantes criaram uma grande desordem no mundo.
Não mudemos de vida, não…