Alguém me dizia há dias que devia estar orgulhoso. “Andaste tantos anos a chamar a atenção para as ondas de calor e agora toda a gente fala nelas”. Respondi que não gosto de orgulhos e estava isso sim, zangado. Zangadíssimo. Que o tempo perdido não tem desculpa. Não volta atrás nem pode ser substituído.
2017 veio a constituir-se como o ano em que o país reconheceu a existência das alterações climáticas. Em 2026, o mesmo aconteceu com as ondas de calor. É obra, depois de tantos anos de trabalho da comunidade científica da Meteorologia e Ambiente enquadradas na ONU. Deu o máximo de conhecimento com análise, dados, avisos, e foi ver e continuar a ver a dominância dos interesses associados aos combustíveis fósseis. Foi preciso que a realidade furasse os olhos de quem devia ter visto, antes de o tempo ter imposto o que não volta atrás. Mesmo assim, apesar do reconhecimento agora nascido, não há medidas de fundo para as enfrentar.
Em 1998, iniciei a relação operacional entre o então Instituto de Meteorologia e o então Serviço Nacional de Proteção Civil. Quando enunciei os riscos meteorológicos e climatológicos com que o país se confrontava, o presidente da Proteção Civil estranhou quando lhe falei das ondas de calor. Percebi o ceticismo do meu interlocutor, mas, conhecendo os efeitos catastróficos, por exemplo em St Louis e Chicago, não tinha dados de Saúde Pública do nosso país para suportar o que lhe dizia.
No ano seguinte, coordenei a organização de um simpósio sobre Meteorologia e Saúde. Esse simpósio permitiu o encontro com a equipa do Departamento de Epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, liderado por Marinho Falcão.
Em 1981, Marinho Falcão era delegado de saúde em Cascais e fez o que pôde para enfrentar a onda de calor de junho desse ano. Excedente de óbitos: 1906. Em julho de 1991, nova onda de calor mortífera e novo estudo que recenseou 1002 óbitos excedentários. Anos mais tarde, publicou numa revista médica os estudos que realizou, mas não teve repercução na ação política e na esfera do conhecimento público.
Afinal, havia dados e ciência sobre os impactos das ondas de calor em Portugal. Estava em isolamento, mas existia. Como resultado, no mesmo ano de 1999, com apoio do Instituto de Meteorologia, o Departamento de Epidemiologia, construiu o Índice ÍCARO de previsão de excedentes de mortalidade em caso de onda de calor. Era um passo muito importante.
A intensa, e temporalmente muito extensa, onda de calor de julho/agosto de 2003 veio validar o índice ÍCARO, embora as suas previsões nunca tivessem sido integradas, pela Proteção Civil, numa estratégia de proteção da saúde pública. Tenho dito muitas vezes que as ondas de calor desencadeiam duas frentes de calamidade, mas o poder político apenas atua verdadeiramente nos incêndios rurais. A sua incidência na saúde pública apenas tem resposta em vagos e elementares conselhos na comunicação social. Se excluirmos os sismos de intensidade catastrófica, a exposição ao calor extremo é o risco natural mais mortífero que pode afetar a vida humana e não só.
Acontece que, desde 2003, em vez de uma recorrência de mais ou menos 10 anos, o padrão de ocorrência de ondas de calor mudou muito e têm sido poucos os anos em que tal não aconteceu. E o país não tem política de proteção civil neste domínio. Nem de prevenção nem de socorro.
Voltarei ao assunto. Há vidas que irão abandonar prematuramente a vida.