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Cata-Ventos: Andar aos papéis

Costa Alves - 20/06/2024 - 9:49

Papéis há muitos. Já não sei qual virá ter comigo e qual caberá nas minhas mãos, se é que algum haverá. Quando ando aos papéis não sei que papéis hei de agarrar ou que papéis hei de desempenhar. Papéis de embrulho, de lustro, papel das cartas que já não se escrevem, papel amarrotado, papel não reciclado. Então, fico longe e largo dos papéis publicamente gritados e aventados pelos televisuais canais e redes ditas sociais. 
Querem que leia em ecrã e tenho na minha que ecrã é ecrã e papel é papel. Há já quem não queira outra coisa, eu ainda quero outra coisa que seja desfolhada com os sabores próprios de tatear palavras como quem descasca laranjas. O papel ainda me sabe a pele e a fruto. 
Lembranças de casas com escritos; afinal não escritos colados nos vidros das janelas, apenas quadrados de papel em branco avisando que é casa para ter casa. Visto de agora, é um luxo; não há escritos que se vejam e a casa dos pais tem de substituir o que faz falta e não há.
Lembranças de papéis químicos que revezadamente escrevíamos e permitiam, na falta de duplicador, quatro ou cinco cópias, cada vez, do que escrevíamos contra a ditadura e que, discretamente, espalhávamos em sítios muito frequentados. Onde isso já vai! Este cinquentenário do 25 de Abril trouxe-me revividas memórias.
Lembranças de infância e adolescência de papel de embrulho, cartolina, cavalinho, cartuchos onde entravam as quantidades de açúcar, arroz, massa que as mães nos encomendavam. O plástico ainda não tinha invadido o planeta das nossas vidas. Passou a ser uma forma mais vasta de andar ao papel que transborda resíduos, partículados ou inteiros, para terra, ar e mar tanto mar.
Vivas ao papel vegetal! - designação redundante ou não fora o papel de origem vegetal – e ao papel pergaminho, celofane, papel higiénico, almaço, papel de fantasia com cores estampadas, papel de mortalha (ai o meu avô!), de seda, de cenário, de tornesol das minhas aulas de Química -  uma solução aquosa é ácida pela coloração avermelhada que esse papel toma. 
E há papel para cartazes, papel de parede, de cozinha, de filtro, autocolante, papel-moeda que também asseveramos ser cacau, carcanhol, cheta, pilim, pasta, guita, massa, caroço, bago, bagalhoça - agora querem que digamos “cash”, coitados! E o mata-borrão? Era um descanso. Sobre papel quadriculado, pardo, pautado, selado, milimétrico e até de jornal.
Lembranças de papelão e dos papelões que todos fazemos nas muitas vidas da vida, mesmo sem teatro que cada vez mais temos menos. Mais e melhor formação académica tem destas contradições: pouca terra, pouca terra de cultura. O deus dinheiro assim quer a nossa pouca terra.
E há pôr no papel e ficar no papel a dormir na gaveta ou nos sótãos do esquecimento. É o que mais há neste mundo de atrocidades, desigualdades, precariedades, desumanismo. As democracias andam aos papéis, as ditaduras acabam com os papéis e as ditaduras disfarçadas de democracia multiplicam-se; são o que está a dar para acabar com o dar e receber.
Volto à minha. O escrito em papel fala mais com os meus olhos. Condiz mais. E com lápis nos dedos, essa minha lembrança do cuneiforme mais volátil que permite que uma simples borracha acuda ao que não ficou na minha vontade. Bem sei que com o computador, etc e tal, tudo isso, claro, não há volta a dar e estes Cata-Ventos são assíduos no ecrã, mas clicar é clicar e papel e lápis é de sabor único, intransmissível. Claro que o teclar venceu, mas, mas...

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COMENTÁRIOS

António Serrano
à muito tempo atrás
Bonito texto, com forma e conteúdo, como tanto apreciava o nosso querido e saudoso Professor, Dr. António Ferreira, 1958/59, no nosso inesquecível Liceu.
Nunca esqueci este Professor! Também me lembro de ti, Manuel! Ambos pelas melhores razões!