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Cata Ventos: António Salvado publica Sirgo III

Costa Alves - 09/05/2019 - 9:55

Reunindo quinze títulos esgotados da obra poética de António Salvado, acaba de ser publicado pela rvj editores o terceiro volume da série de “Sirgo”. Sirgo I englobou catorze livros e foi editado pela A.23 edições; Sirgo II inseriu quatro títulos de poemas em prosa e poemas dispersos, numa edição do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Podem ser adquiridos na Biblioteca Municipal de Castelo Branco. 
Na escrita do poeta está sempre presente “a frágil flor da vibração da esp’rança”, que o livro “O Gosto de Escrever” (de 1997) regista “contra a cor transparente da tristeza”, murmurando “uma reza de luz por entre os dias.” E, perante a solidão (ou na solidão de quem escreve), “tudo se cala   à sua volta/ têm outro percurso as horas,/ os ventos negam movimento,/ a cor do mar é de silêncio,/ no alto os astros adormecem”.
Aceitarão que me limite a inserir neste espaço alguns extratos dos tecidos poéticos que vestem as 690 páginas deste volume. Percorrendo-as, fazemos uma viagem única, longa e infatigável “Na Margem das Horas” (título de um livro publicado em 1960) “em ânsias obstinadas”. Viagem em que o próprio poeta reconhece as dificuldades de um percurso ininterrupto que abrange os sentidos da vida toda: “surpreendeste lonjuras e distâncias/ trepaste cerros   faldas e vertentes,/ domaste hesitações entre meandros.” (Certificado de Presença, 1996). E sabendo qual o destino, “ainda que o meu corpo de surpresa/ em surpresa se perca a caminhar -/ continuamente mesmo estando preso/ eu regresso ao Lugar.” (O Corpo do Coração, 1994).
Permitam que, na vagabundagem pelas suas páginas, escolha pedaços saborosíssimos do “Rimance do Rio Tejo em Ródão” (poema dedicado a Manuel Cargaleiro em 1994) - rio Tejo tal qual ainda se iça na memória e, como preocupantemente temos visto (e revisto), já não está ao alcance de todos os nossos sentidos. O poema regista a sua relação com ele: “Em mim corre vivaz rio/ e sobre as águas o luar;/ estrelas velozes caídas/ p’ra dentro dele se banharem. (…) Absorto e ameno como quem/ calca receios de seguir,/ fechar portas   portas abrir foi seu destino de corrente. (…) Nada mais soube desse rio/ que por mim corre tão vivaz/ - quando os dois partimos um dia/ na ânsia de chegar ao mar.”
A presença das estações é uma constante na criação de António Salvado. Se é outono, pergunta: “como restam/ ainda nesta árvore/ as verdes ilusões?” (Outono, 2009). Se chega a primavera, perante o renovar da vida, verifica: “primaveraste/ falaste com as aves”.
O poema vem muitas vezes da “ânsia de repor/ a luz onde faltou o cintilar/ da confiança num porvir mais doce” e, “quando as palavras/ procuram acolhimento/ o poema já foi escrito” (Repor a Luz, 2011). A criação poética, sempre autointerrogada no interior da obra de António Salvado, referencia-se ininterruptamente enquanto “canto, canto, canto não sabendo/ porque se alinham no meu peito passos/ refeitos   alinhados em palavras.”
Continuo a citá-lo desejando o que o poema “desejar clamando/ que mais à frente/ o destino não espere” (Ao Fundo da Página, 2008). Sempre a percorrer territórios de incerteza e interrogação, o poema sabe que “ainda não é tempo de sentir/ as emoções fremirem de sossego.// Não é chegado ainda o tempo da sageza/ em que tudo se aclara com prudência.”
Sirgo tanto pode designar quem produz a seda ou quem a tece. Não haveria título melhor para esta série de livros esgotados de uma obra poética que começou a ser publicada em 1955.
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