Pois é, leitor, a guerra é a guerra. Ouvimos bem cedo o mandamento de “Não matarás!” mas, se a guerra estala, não serve para nada. Quando os poderosos a decidem, o “Não matarás!” é para esquecer. Continuamos a acolher essa prática infernal como normal. Pior do que normal: banal. Pior do que qualquer pior. No entanto, a voz pública secular tem a sentença: “quando se declara a guerra, o diabo alarga o inferno”. Cá em baixo, alarga o inferno de viver e não há mandamento humano que castigue os intervenientes na guerra. Nem pecado é deduzido para purgar.
A guerra é uma privilegiada; está ilibada e até tem bênçãos a acompanhá-la. Foi sempre assim, já a minha avó garantia à minha adolescente estranheza; os labirintos da história sugerem que é uma fatalidade. “A guerra é a guerra/ No céu e na terra/ Nos dentes a faca”, reza a canção de Fausto.
Para Paul Valéry “a guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito de pessoas que se conhecem, mas não se massacram.” Thomas Mann escreveu que “a guerra é a saída cobarde para os problemas da paz” e Gandhi predizia as consequências: “olho por olho, e o mundo acabará cego”. Convoco o “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago para nos iluminar quando a humanidade fica cega. E, como os regimes político-económicos não sustentam os valores fundamentais de convivência entre as sociedades, a cegueira dos poderosos é capaz do pior. Cúmulo da falsidade: é em nome da paz que fazem a guerra.
As guerras de agora não metralham olho por olho; são cegas. Vandalizam. Barbarizam. Uma escola é vista nos ecrãs do disparador como se fosse uma coluna de carros de assalto e um hospital como um complexo de artilharia a suplicar que o aniquilem. O lado da superioridade tecnológica militar quase nada arrisca e o da inferioridade é o que sabemos: escombros e, até, genocídio. Não imagino o que é ser assolado pelas novas tecnologias da guerra. Não posso imaginar. Só estando lá com bombas a disparar extermínios. Num estampido, desaparecem pessoas e construções que dão vida a gerações, como se fossem empecilhos. Costumamos chamar progresso à evolução tecnológica, mas os efeitos da sua aplicação à guerra desaguam em barbárie.
Agora, com a dita Inteligência Artificial, a guerra não precisa de generais. Realmente, é um descanso para os que a decidem e para os que a operam. Os dedos clicam, não primem gatilhos. É um consolo. Nem precisam de colocar em risco quem mobilizam para guerrear. Trabalho limpo, computacional, televisual, espécie de desporto radical, jogos de computador, sem pólvora nas mãos, sem esforço, sem cálculo de equações que regulam trajetórias. Fazem a guerra, mas não se expõem a ela. Tudo automatizado, sem emoções frente à emoção de quem grita e vai ser explodido. Com a IA, o risco de quem guerreia é mínimo. Quase nada acontece a quem a usa e quase tudo a quem a sofre. Com a opinião pública contida, não vá ela zangar-se e espirrar.
A IA é um faz-tudo. Extermina que se farta. Já comanda, ou vai comandar, drones, mísseis, porta-aviões, torpedeiros, bases militares, enriquecimento de urânio, dissuasão nuclear, tudo com variadas consequências na vida do mundo. E os habitantes que paguem a cólera bélica de quem manda na guerra. Enfim, há Hítleres, agora com outro trajar e palavrar, mas com aparentada visão do mundo. Aos Eichmanes que há por aí basta-lhes ter alma de assassinos em série. Não distinguem o bem do mal.
Ultrapassar os escombros deste tempo e acordar daqui a anos. Com outro tempo.
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