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Cata-Ventos: Às três pancadas

Costa Alves - 28/05/2026 - 9:03

Isto está às três pancadas, leitor. O mundo, o país, a vida. Já nem sabemos para onde nos virar. Falemos então de pancadas e, para já, das três pancadas.

É raro, nos dias de hoje, que o início do espetáculo teatral seja anunciado com as pancadas de Molière. Tenho pena, mas, como já tenho o corpo coberto de penas, é mais uma, embora com o seu quê de exasperante frustração. Ao menos, o pano aberto com as pancadas do criador de "As Preciosas Ridículas", "Tartufo", "O Misantropo", “O Avarento”, e tantas outras peças de teatro, podia ajudar em muita coisa. Talvez aquele conjunto de três batimentos rápidos com um bastão, seguidos de três mais espaçados, que antecedem o início do espetáculo dramatúrgico, viesse dar outra solenidade e seriedade intelectual ao que vai acontecendo em palcos com tantas personagens de ópera-bufa à portuguesa. E ópera-bufa à portuguesa não tem nada de sinceramente imaginativo, cómico ou dramático; não tem graça, embaça e até encobre desgraça. Berrarias, falsidades, táticas e ocas perceções à discrição. De uma coisa tenho a certeza: as três pancadas de Molière não pertencem à família de Às Três Pancadas em que vão as governações neste nosso tão acossado mundo.

Enfim, com mais azeites ou menos azeites, com mais ou menos pilhas de nervos, ou às camadas, cá (nos) vamos suportando, alheando, vociferando, desperdiçando. Como reza o adagiário, “quem apanha as pancadas não é quem as conta”. Ou, já que falei em estar com os azeites, “não é pancada de vara que amadurece a azeitona”. Nem uma nem as que virão depois. Com vara ou com qualquer das muitas outras varas que andam por aí a vergastar-nos. Convém que convoque as muitas palavras que a nossa língua tem nos seus alforges e que vamos esquecendo: bordoada, sova, surra, coça, tareia. E nem falo do que aconteceu naquela esquadra ou das pancadarias a varrer dos que fazem guerra à vida.

Mas, voltemos às três pancadas. Isto é, ao método do atabalhoado, improvisado, meia bola e força, de qualquer maneira, precário (a lei laboral quer ainda mais precário). Aquilo de que nos gabamos de ser ao contrário quando trabalhamos fora do país - possivelmente, espanhóis, gregos, italianos, entre outros, dirão o mesmo dos seus. Não precisamos de exemplos deste método que dizem caraterizar-nos. É o que mais há. Se nos pusermos a desfiá-los, até uma ou outra guerra parará antes de nós.

Não precisamos de andar ou jogar (jogar?!) à pancada por causa de uma realidade que bem conhecemos. Nem de fugir de um aguaceiro forte designando-o como pancada de chuva ou de água. Pancada de água? A inocente, incolor, inodora e transparente água a andar à pancada? Somos uns exagerados. Convenhamos: fazer bem e durável é um trabalhão. Poucos se atrevem e esses, dizemos, têm pancada na mola. Não têm juízo, não aproveitam o negócio do que está a dar.

Cá por mim, acho que gostamos de esperar pela pancada. O “Discurso da Servidão Voluntária”, feito pelo discípulo de Montaigne, La Boétie (1530-1563), merece ser lido e relido; está bem vivo. Esperar que o negativo venha ter connosco e não o prever ou não ter resposta, permitir-nos tal, dá no que sabemos de experiência comprovada: esperar que o futuro nos venha bater à porta e, pancada por pancada, a arrombe. Socorro-me uma vez mais do adagiário popular para apontar: “quem não tem vergonha da palavra, não a tem da pancada”. O “Discurso da Servidão Voluntária” também nos avisa. Talvez achemos que quem espera sempre alcança, mas, se não fizer por isso, já sabe de onde lhe virá a pancada. 

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