E pronto, “a reconquista” já cá canta. Iludiu, resignou, esperançou, tremeu, mas subiu as encostas do êxtase. “E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou” (Carlos Drummond de Andrade). E agora?
Olho para trás e tento determinar como se formou o meu benfiquismo. Filho de sportinguista, seria natural que o meu destino não fosse este. Mas, imagine que é confiadamente colocado perante as armas do barbeiro de uma das esquinas convivenciais de antigamente. Sentado no banquinho de menino, é como se no terceiro anel quando o Águas trepa para o golo em voo picado de águia. A barbearia do Sr. Chico Manso, situada num canto do edifício onde funcionava a fábrica de pirolitos “Castraleuca” (perpendicular ao - hoje - “prédio dos emblemas”), é um templo com seus recantos abençoados. Por cima do espelho, a bandeira do Benfica. Pelas paredes, os “ídolos” de então.
Aconchegado pelo estendal de atenções em que o Sr. Chico Manso me enrola, mal inicia a função, sinto algo que parece um escalpe. “Doeu?”, pergunta exibindo um instrumento aferrugentador e incompetente. “Desculpa, enganei-me. Esta é a tesoura do Sporting.” Segundo ato: tesouradas com arte e violinos, voo suave de águia pelos píncaros de um céu sem torturas. “E, agora, está bem?” Claro que estava bem. “Sabes, esta é a tesoura do Benfica”. Com este grande golo, escusado será mencionar a resposta que darei nas vezes seguintes à sacramental interrogação: “Queres a tesoura do Sporting ou do Benfica?”
Definitivamente ligado à corrente benfiquista, sinto latejar a orfandade do sportinguismo minoritário do meu pai e ainda hoje não me perdoo. E, quando o Benfica vinha jogar à Covilhã, a caravana automóvel era forçada a parar no adro da nossa idolatria ali espojada, junto à Castraleuca, com bandeirinhas e dísticos a interromperem a entrada na cidade, como se em manifestação por melhores condições de vida que, na altura, não sabemos o que são. Sobrava-nos tentar tocar no Francisco Ferreira, no Félix, no Águas, no Rogério, no Julinho (virá a ser jogador e treinador do Benfica e Castelo Branco), agitar abraços, pedir autógrafos e cromos para colar nas cadernetas. Estão lá todos os garotos da Rua de Santiago e da “Castraleuca”. As claques do tempo. Espontâneas, pacíficas, ingénuas. Não como as de agora, armadas como andam de fanatismos que esgrimem ódio com tochas, más-criações, “very lights”, isqueiros; até sacrossantos telefones atiram para o relvado.
Estavam lá os homens mais conhecidos da cidade: o Zé Gavetas, o Guilhermino e, até, o Zé Noco que era surdo-mudo e andava a vender jornais no meio da rua porque um dia tinha sido atropelado num passeio. E, já agora, acrescento o José Estaline, o António Benfica, o David (que virá a ser um excelente médio-defensivo do Benfica e Castelo Branco), o António Lenine, o Victor Ambrósio que também teve carreira futebolística aqui. Os nomes que hoje podem criar estranheza eram familiares do Sr. David, proprietário da fábrica de pirolitos. Para os miúdos de então, eram nomes como outros quaisquer na pequena cidade tão escura e aprisionada no tempo da ditadura. Só em 1956 venho a saber quem é Estaline (Lenine, só anos depois) quando, fardados de Mocidade Portuguesa, nos obrigam a manifestar contra a invasão da Hungria.
A minha educação eletiva foi feita também em benfiquismo. Vem da inocência confiada e espreguiça-se, hoje, em ano de campeão, entre a complacência afetuosa e a severidade com que rejeito a truculência integrista do fanatismo.