Faltava a voz do futuro - a voz dos nossos filhos e netos. A voz das gerações que vão ter de enfrentar o futuro que a nossa inação lhes entrega. Começou, em setembro, com a voz de Greta Thunberg, sueca, então com 15 anos, a erguer-se silenciosa num cartaz, todas as sextas-feiras, encostada à parede do Parlamento. Outras vozes ouviram e multiplicaram-se sem fronteiras. Em 15 de março, juntaram-se em todo o mundo para que todo o mundo as ouvisse.
Se virmos as fotografias das concentrações, ficaremos com uma ideia do novo que emerge das suas mensagens a um ritmo semelhante ao das notícias televisivas sobre as passagens de ano. Vêm da Nova Zelândia, aparecem no Japão e na Coreia do Sul, despontam em Hong Kong. Vejo concentrações na Índia e, sucessivamente, aterram na Europa de Leste, exibem-se em cidades suíças e nos países nórdicos, com destaque para o país de Greta. Vejo imagens suas em Londres e em várias cidades francesas - na praça da catedral de Milão quase não se divisa lugar para mais alguém naquele mar aceso de adolescentes.
Entro na mítica Puerta del Sol e recordo outros tempos de Madrid em que este tema ainda não assomava com tal prontidão. E, claro, chego a Lisboa, ao Porto a Faro, à Covilhã, entre outros sítios do nosso portugalíssimo atraso. Compreenderão que não posso ser exaustivo na enunciação dos lugares onde tais flores brotaram, mas deixem-me saltar para África e içar imagens do Quénia e do país de Mandela. Seguindo a lei do caos, o relâmpago de uma voz adolescente na Suécia gerou relâmpagos de vozes adolescentes em todo o planeta pela nossa casa comum.
Leio e registo alguns dos inúmeros cartazes. Alguns contêm afirmações lapidares, secas, desafiantes. Conhecem o problema e a crise do futuro que lhes cairá em cima. Em abstrato, apontam o dedo, às gerações de pais e avós mas, em concreto, acusam o sistema de poderes políticos e económico-financeiros; o sistema que decide.
Confessam: FALTEI À AULA DE HISTÓRIA PARA FAZER HISTÓRIA e demonstram ter consciência de que ESTÃO A ROUBAR-NOS O FUTURO. Por isso, HOJE A AULA É AQUI, pois AULAS HÁ MUITAS, PLANETAS SÓ TEMOS ESTE. Não há concentração que não manifeste esta constatação básica: NÃO HÁ UM PLANETA B. E, visto que SEM PLANETA NÃO SOMOS NADA, a exigência é direta: NEM UM GRAU MAIS NEM UMA ESPÉCIE MENOS. Em coerência com esta consciência, avisam-nos: SE NÃO AGEM COMO ADULTOS, NÓS AGIMOS.
São maioritariamente estudantes do ensino secundário a dar-nos esta lição. Era impensável que lhes coubesse a vanguarda, quando a nossa esperança se deposita (inutilmente, há muitos anos) em estudantes do ensino superior que continuam bloqueados quando procuram o futuro.
António Guterres, secretário-geral da ONU, interpretou muito bem as mensagens: “estes alunos aprenderam algo que parece escapar a muitos dos mais velhos: estamos numa corrida pelas nossas vidas e estamos a perder.”
Sabem que, como ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO (todos) e que HÁ MAIS PLÁSTICO QUE SENTIDO COMUM, se quiserem NEGAR É SUICÍDIO. Estes rapazes e raparigas ainda não têm direito de voto, mas têm muita matéria para concluir: SE O PLANETA FOSSE UM BANCO, JÁ O TERÍEIS SALVADO. Também a criança da fábula proclama a sua sentença: A TERRA NÃO É DO HOMEM; O HOMEM É DA TERRA. Portanto, exigem: NÃO QUEIMEM O NOSSO FUTURO. E, SE A ECOLOGIA NÃO TEM LUGAR NO SISTEMA, HÁ QUE MUDAR O SISTEMA. Ou, de outra maneira, MUDEMOS O SISTEMA, NÃO O CLIMA - “A TERRA ESGOTOU A SUA PACIÊNCIA E NÓS TAMBÉM.