Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Cata-Ventos: Casa

Costa Alves - 15/10/2026 - 9:01

Pois é, a casa. A casa que falta. As casas que faltam. E as pessoas? As pessoas que não estão nas casas que faltam. E os jovens adultos que vão adiando adiando a hora da afirmação de vida própria. A falta que fazia a Maricarmen a casa da sua vida. Aos 87 anos, condicionada numa cadeira de rodas, é despejada por um tribunal a favor de um fundo imobiliário a que chamam fundo abutre. Sabemos como saiu para um hospital e lá morrer duas semanas depois.

“Oh as casas as casas as casas”! Saboreemos a poesia de Ruy Belo. “Eu amei as casas os recantos das casas / Visitei casas apalpei casas”e “só as casas explicam que exista / uma palavra como intimidade”. De certo que Maricarmen subscreveria mais estas palavras de Ruy Belo: “na casa sofri convivi amei / na casa atravessei as estações”. Também poderia testemunhar como um desejo legítimo foi traído: “na casa nasci e hei de morrer”. Se, como escreve Ruy Belo, as casas “morrem com a morte das pessoas”, como devemos encarar o falecimento de Maricarmen, perante a fundada presunção de que a casa de uma vida não morreu com ela? Só pode ter sido assassinada pelo sofrimento que lhe causaram e agudizou, em todos nós, a noção de fragilidade perante os interesses de poderosos que desprezam o que sabemos sobre o que uma casa é e representa.

A poesia de Manuel António Pina celebra o amor como casa e simbolicamente celebra, no poema “Amor como em casa”, a casa como amor: “Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa (…) regresso devagar a tua casa, / compro um livro, entro no / amor como em casa.”

Não sei para onde vão estas sociedades que desvalorizam, desprezam, rejeitam quem quer casa, quem precisa de casa, como precisa de água, abrigo, higiene, proteção, vida própria, direitos humanos básicos. Quem pode viver sem o pão de uma casa?

Dizem-me: se não podes ir ao mercado das casas, não sei como podes sobreviver. Vais ao Deus-dará dos materiais que podem servir para improvisar um arremedo de casa, juntas o que conseguires, chamas familiares, amigos e associações de apoio e aí tens uma barraca a que chamarás teu céu; mesmo sem as outras muitas

condições mínimas. O ditado popular dispõe: “o homem faz a casa e a casa faz o homem”. E previne: “o teto de quem não tem casa é a copa das árvores”. Parêntesis: não te esqueças dos bairros de lata do tempo da ditadura.

Tempos depois, as autoridades, que regulam o dura lex do mercado, vêm e deitam abaixo esse teu teto e mandam-te fazer o que já fizeste e não deu; alugar a casa a que não podes chegar. O mercado é cego, surdo e mudo e terás de voltar à primeira forma. O Deus-dará tem sempre materiais que sabes reciclar. Então o teu céu volta a renascer, mas o buldózer está atento e voltará a arrasar-te a alma. Provavelmente, daqui a uns anos, será convocado um drone para fazer o desbaste. E pronto, não sei o que poderás fazer mais. Não querem barracas vindas do Deus-dará e só oferecem casas a quem puder chegar ao mercado híper do imobiliário que, diga-se de passagem, anda esbaforido com altas febres financeiras que imobilizam quem não pode subir as suas escadas. Suplícios de Tântalo ou de Sísifo.

Creio que não terá sido por acaso que José Jorge Letria juntou casa e poesia num poema para crianças intitulado “A Casa da Poesia”. Como quem diz, a casa está em toda a parte e, claro, também está na poesia. “Poesia tem uma casa / como as pessoas têm”. Recordo a citação de Manuel António Pina que citei: “regresso devagar a tua casa, / compro um livro, entro no / amor como em casa”. Em casa, a casa.

[email protected]

COMENTÁRIOS