Com o título (“Sirgo”) deste volume, António Salvado emerge como sirgueiro tecedor de casulos sedosos de poesia. Neste caso, são catorze as teias que o tempo tinha congelado, esgotadas, até chegarem, agora, às nossas mãos reunidas num volume com 514 páginas, publicado por A.23 edições. São catorze dos mais de oitenta livros que registam o seu itinerário de criador de poesia, desde “A Flor e a Noite”, impresso em 1955 na Tipografia Semedo (lembram-se?) em Castelo Branco.
Previno outra vez o leitor de que não tenho preparação para recensear analiticamente obras literárias. Mas, julgo que posso aventurar-me a transmitir algumas impressões sobre o que li e fruí. O meu Cata-Ventos não podia deixá-las a voar sem as orientar para este recanto.
Abro “Recôndito”, obra de 1959; tem António Salvado 23 anos. O segundo poema, com o título de “A Página”, já nos indica a interminável rota poética que seguirá: “lisa de brancura,/ aguarda calma que a preencha… (…) “Emblemas não os tive ou tenho:/ eu vou minh’alma e não sei onde!/ O que posso e não posso, di-lo/ meu coração à espera…”
Com a edição deste volume, começo a descobrir outros trilhos que a sua criação abriu decifrando a nossa “Estranha Condição” (1977). A matriz é “dominar essências”, em permanência, seja qual seja a matéria inspiradora: rocha, árvore, cantar de amigo, fonte, cegonha, estações do ano, borboleta, esperança, etc, etc. “Acordar o sentido era romper/ o dique e dominar essências”.
Nas matérias do amor, matéria sempre presente e sempre inesgotada, a “Estranha Condição” (1977) entreabre as portas desta imensa ilha: “tem a medida certa dos teus lábios,/ as sílabas perfeitas da palavra amor/ tem a paixão, a brisa, o sal do mar,/ tem astros, precipícios, confusão”.
A “Estranha Condição” tem sempre “esperança” – a esperança está sempre nas entrelinhas da sua fala poética; na sua definição e na função que possui: “És uma ideia: a corola da tua/ existência distribuindo pólen/ na tristeza recôndita dos homens”.
“Aqui”, diz o poeta, “no altar do tempo respiro.” Estamos agora em tempo de “Interior à Luz” (1982), em territórios onde a Beira Baixa mãetriz (deixem-me escrever matriz assim), “onde as searas cruzam o granito/ e a voz do longe é feita de suor (…) e o verde esperança filho da sem esperança”. E, no interior desta luz, permanece uma “Curva de Música” “nos acordes da ternura/ na lentidão absorta da harmonia.”
Salto para “Amada Vida e Outros Poemas”. “Amada Vida”, mesmo sabendo “como cansa tristemente cansa/ naufragar no mesmo sonho/ e amanhecer anoitecendo assim”. António Salvado é lapidar na opção: “tudo me sinto perto”. E, metaforicamente, denuncia o que sonhamos para a vida toda dos nossos percursos: “altear com sol a terra lavrada”. “Altear” a vida toda. “Altear”.
E pronto, veja o leitor como são as distrações. Estava entretido (e entretecido) com estas impressões e não olhei para as horas ou, melhor, para o espaço que se foi esgotando com estas sumaríssimas pinceladas de quatro livros. Ficam por registar outras tantas sumaríssimas pinceladas dos outros dez que apenas posso convocar pelos títulos: “Des Codificações” (1987), “Matéria de Inquietação” (1988), “Vtere Felix” (1990), “Nausícaa” (1991), “O Prodígio” (1992), “Estórias na Arte” (1995), “Rosas de Pesto” (1998), “Quase Pautas” (20005), “O Sol de Psara” (2011), “Treze Odes Latinas” (2014).
Permita que lhe deixe esta sugestão: leia. Leia António Salvado.