É este o mistério de uma casa, a morada/ habitando o tempo, a luz ardendo/ no sono da lareira. Consumindo a memória,/ a casa emergindo de uma música./ Foi ontem que habitei aquela casa, a história/ das águas desabrochando. Como as matutinas rosas.”
Decerto que me perdoarão esta entrada de roldão na casa da poesia de Isabel Salvado. Poesia de extrema e extremosa beleza criada nos anos de 1980 e registada em revistas culturais, antologias e suplementos de jornais e tão pouco revelada.
“Escrevo deslumbrada, detida/ nesta imensidão quando algo está por dizer.” E escreve sobre “o mistério” da sua casa de infância albicastrense “emergindo de uma música” sobre a “importância de se dizer a vida”. A distância confirma-o: “ainda conheço a seiva da música, a árvore que me escolheu por fruto”, pois “o importante é a música que se abre aos lábios.”
Limito-me a gostar de poesia e apenas posso revelar excertos dos dezoito poemas que conheço, entre os publicados por esta poetisa que nada nos rios mais dinâmicos e cristalinos da poesia. Dezoito poemas que são casas construídas com palavras apuradíssimas por uma inteligência poética luminescente. E esperamos pelo mais e muito mais que a poesia pode sempre alcançar. A poetiza o diz: “nunca é tarde. As palavras não morrem.”
As palavras são pensadas, escolhidas, interpeladas: “Muitas vezes escrevemos com palavras desmedidas/ e não escutamos as coisas que aprendemos/ na nostalgia dos sentidos. Fazemo-lo/ com clandestinos olhares, subtis exigências/ da alma. Fazemo-lo entre a pele e a garganta.” E revela, como escreve na sua “Mensagem a Ruy Cinatti, coração de pássaro”, que, “por vezes agredimos as palavras, sem querer./ As mesmas palavras que nos permitem viajar/ na procura de um olhar solar. Ou do momento/ sagrado.”
Leio e também ouço o que sussurra a Sophia de Mello Breyner:
“Ouve-me: Trouxe do mar os frutos do regresso./ E o búzio que sobrou da madrugada./ Li teus livros sempre com perfumes e dunas/ nos meus olhos. Desprevenidos.”
Os versos que ocuparam a entrada deste Cata-Ventos pertencem a um longo e notabilíssimo poema intitulado “As casas não acontecem: habitam-se”. Dramatizado por Jorge Listopad, foi levado à cena, em junho de 1988, pelo Grupo de Teatro do Instituto Superior Técnico.
Continuo a registar extratos e apetece-me lê-lo e distribuí-lo em voz alta ressonante na nossa terra natal: “Aqui estou a recordar. Só se esquece um lugar/ onde o sol foi feliz, onde o corpo foi mais novo,/ se não soubermos o seu sentido. Eu sabia o sentido das coisas,/ o acreditar nas estrelas, o horizonte do olhar.”
A casa é “um eco/ do sonhar nas caladas searas da infância” habitadas por “uma criança tangente ao desejo”. É um lugar que fica a flutuar incorruptível na memória com poesia a vibrar em todos os sentidos.
Agora, “tenho uma pequena casa adormecida/ na minha solitária voz.” Na distância dos anos de 1980, “até o vento é agora mais pesado, ao anoitecer/da inocência. (…) A mão medindo bem o peso/ do vento. Sabendo bem que a infância é um lugar./ O meu mistério foi uma casa:/ a íntima visão da escrita da manhã.”
Isabel Salvado conhece bem “o avesso dos dias” e “a escrita pressentida na véspera dos frutos”. Diz: “Sobram-me as mãos, agora.” E pergunta (pergunta crucial): “Como tocar a madrugada/ sem despertar longamente a noite?”
Sem mais espaço, repito o título deste texto: Conhecer a poesia de Isabel Salvado. Para conhecer melhor e mais a vida. Poeticamente. E publicá-la.