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Cata-Ventos: Conversa com (o) pó

Costa Alves - 25/01/2024 - 9:45

Permitam que fale com (o) pó. Pó? Sim. O pó tem tanto que se lhe diga. Comecemos com o pó de arroz. Confesso que estou farto de aparências, de máscaras sobre máscaras, estou farto de máscaras no parecer e com despreocupações pelo ser. Mas, enfim, estamos neste mundo e já nem falo dos palavrosos discursadores e discutidores que dizem e se desdizem antes de caírem sempre prontos para continuar. Antes pó de talco, sempre ajuda e faz bem onde deve. Apesar disso, mesmo que já tenha passado o tempo de educar as crianças sacudindo-lhes o pó, continuam a fazê-lo com jeitos de quem faz o bem fazendo-o mal.
Falei de educação e não posso deixar de abominar vários dos algoritmos que se (as)sentaram nas nossas vidas. Mas não culpem a matemática que tão ignorada anda, embora ninguém a consiga vencer. Eu já sabia que quem vai para mais alto, desaprende muito do que sabe e, sobretudo, rejeita o que ignora. Somar alhos com bugalhos, para resultarem maçãs? Porque não? Mesmo que seja uma equação aritmética fácil de discernir, a ciência não é muito convocada para ser aplicada em decisões políticas. O aquecimento global que o diga.
Mais pior (permitam) é a vida de entristecer que anda pelas casas do mundo com o pó das metralhas a cobrir vidas e futuros. Os valores e as normas de conduta de quem tem poder não são os valores nem as normas de conduta de quem não está nesse submundo - agora autorizado pela pandemia a ser designado por bolha; bolha político-mediática. Já que estou a nadar em pó, deixem-me confidenciar (só entre nós): estou-lhes cá com um pó!
Já nem falo nos anéis que se foram entre bancos e telecomunicações e rede elétrica e correios e aeroportos e navegação aérea e o mais que já esquecemos no mercado de pó do deus-dinheiro. De seguida, irá a TAP e, está-se a ver, boa parte do Serviço Nacional de Saúde, até que se consume um destino projetado muito longe dos nossos olhares. Anéis e mais anéis que são dedos, dedos de todos nós. E, mais pior (idem), não sabemos o que fazer para não morder mais pó.
Há por aí quem queira semear pós de perlimpimpim. Magia, amigos, magia. Tudo se resolve manipulando palavras de ocasião como se fossem pérolas. Até parece que isto só lá vai com tais pozinhos, pois até temos a ilusão historicamente datada de esperar renascer atrás de prestidigitadores que façam de nós o que querem.
Mudemos a perspetiva, pois, de pó, há derivações que vale a pena registar. Poeira e poeira para os olhos, nevoeiro em pó. Poalha será poeira suspensa na atmosfera que foi levantada pelo vento para ascender muito particulada pelos movimentos de subida do ar fortemente aquecido durante o verão. Poalho, o masculino, já não é dessa bruma, mas chuva miúda e de curta duração. Assim dispõem os dicionários e não tenho competência para desvendar este salto semântico de o pó se condensar no estado líquido.
De resto, há café em pó, leite em pó, pó de giz, pó para aspirar (não para inspirar), pó que assenta com a chuva, pó para pano de limpar, aqueles que julgam que já somos pó, a certeza de que vamos p’ra pó, o rio Pó, mas é no norte de Itália e não interessará aos rios nem ao pó daqui. Temos livros cheios de pó e uma já defunta livraria de bairro, em Lisboa, chamada “Pó dos Livros”. Era independente e alternativa; com onze anos de vida foi devorada por um abutre que se alimenta de memórias em pó. As livrarias também moram no pó das ruas das nossas amarguras; pó que o diabo amassou.
Enfim, haja saúde! E saúde mental! Hoje por hoje, não sei que mais diga. Nem pó!

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