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Cata-ventos: Curtos circuitos no Museu Francisco Tavares Proença Júnior

Costa Alves - 06/04/2023 - 10:04

GRAVILHA. Em 2002, dizia a então diretora do Museu que era provisório o lastro de gravilha que ainda hoje cobre o extenso espaço de entrada do antigo Paço Episcopal onde, em 1971, o Museu se alojou. Decorreram 21 anos e é mais um glorioso exemplo de como o provisório ganha longevidade e parece anunciar-se para o sempre. Para mais, estamos às portas de um edifício que é Monumento Nacional.
CATA-VENTO. É uma peça única criada no século XVIII que entrou no património do Museu em 1917, alguns meses depois do falecimento do seu fundador. Estava içado no topo da sede atual do Museu, mas desapareceu no rescaldo de obras realizadas em anos de 1980 e afundou-se em esquecimento. Há uns 6-7 anos foi encontrado por acaso, no sótão, soterrado por um amontoado de coisas. A Sociedade dos Amigos do Museu promoveu a sua reabilitação e apresentou-o, ressurreto, em sessão pública. A Câmara Municipal, já então responsável pela gestão do Museu, garantiu que iria ser colocado no seu posto. Até hoje.
GESTÃO. Em 2015, passou, por contrato, da gestão da Administração Central para a Autárquica. Tinha diretora e deixou de a ter. Uma técnica superior foi deslocada para serviços municipais. Outros cinco técnicos foram absorvidos pelas administrações central e autárquica. Alguns guias aposentaram-se e não foram substituídos. Sem autonomia e sem direção, o Museu não tem orçamento nem programas anuais e plurianuais de atividades. Também não faz divulgação do acervo nem possui responsável pelo serviço educativo. A missão primeira entre as primeiras - conservação e restauro - é igualmente vazia. O mal atingiu todos os interstícios. A descentralização da gestão não contrariou a imobilidade; encaminhou-a para mais perto do deserto.
DIRETOR. Reconquista, 10-02-2022, citação: “O diretor do Museu Francisco Tavares Proença Júnior vai ser escolhido através de um concurso público internacional. A garantia foi deixada ao Reconquista pelo presidente da Câmara, Leopoldo Rodrigues. ‘É importante que o museu tenha um diretor. A sua escolha terá em conta o programa que cada candidato nos apresentar’, diz. O método escolhido pela autarquia é muito semelhante ao que é ‘realizado nos grandes museus nacionais e internacionais. É aquilo que os museus de referência fazem. Durante este ano queremos ter o processo concluído’. (…) Leopoldo Rodrigues recorda que ‘a existência de um diretor é também uma das reivindicações que a Sociedade dos Amigos do Museu considera importante.” Até hoje!
SOCIEDADE DOS AMIGOS DO MUSEU. Nestes anos a fio, foi a Sociedade dos Amigos que manteve a chama centenária acesa pelo arqueólogo Francisco Tavares Proença Júnior em 1910. A Sociedade dos Amigos foi a única presença ativa nestes últimos tantos anos de insuportável esvaziamento. Realizou exposições e debates inspirados no acervo e na crise gestionária, publicou vários trabalhos de investigação e divulgação, elaborou um Dicionário do Museu e reintroduziu, em 2016, a publicação da 3ª Série da revista “Materiaes”, criada pelo fundador em 1910. Ainda agora saiu a edição relativa a 2022 desta revista que é, tão só, a única revista cultural elaborada no concelho.
MISSÃO DO MUSEU: “O estudo e a investigação, a recolha, a documentação, a conservação, a interpretação, a exposição e a divulgação do património cultural que integra o seu acervo com especial relevo para as coleções de Arqueologia e de Têxteis, entendidas enquanto referentes identitários, fontes de investigação científica e de fruição estética”. Cumpra-se!

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