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Cata-Ventos: Dia da Criança

Costa Alves - 01/06/2023 - 7:42

“Era um grande ilusionista / Engolia três rosas pequeninas / e em seguida tirava da boca / um quilómetro de serpentinas. / Uma noite chegou ao meio do circo e disse: / respeitável público de meninas e meninos / hoje quero fazer-vos uma surpresa / Atenção! / Mastigou as tais três rosas pequeninas / muito bem mastigadas / abriu a boca e em vez de serpentinas / saíram três pombas encarnadas / uma foi para o Brasil / a outra voou para a China / a terceira mais pequena não saiu de Portugal / e o ilusionista? / Deitou a língua de fora e foi-se embora / Mais nada? / O respeitável público de meninas e meninos deu uma grande gargalhada. / Fim desta história encantada.” [Era um Grande Ilusionista, António José Forte]

“As árvores parecem falar umas com as outras. / A árvore é uma espécie de estátua. / Esconde-se o sol e dormem as árvores. / O dia está a nascer, as árvores esticam suas folhas / Ó árvore porque não aprendes connosco nas aulas? / As folhas caem como se fossem gotas de água. / A árvore é igual ao homem que canta com o vento. / Dá-me duas folhas e serás uma árvore florida! / A árvore é uma verdadeira flauta. / Árvore verde do sol. / As árvores riem-se do Verão. / Ó machado, que medo. / Esta árvore mostrará a sua beleza quando as borboletas mostrarem a sua. / As árvores dizem adeus ao vento e não se vão embora. / As árvores pequenas a abanar vão crescendo. / A árvore tem muitas belas mãos. / Os passarinhos fazem cócegas nas árvores. / As árvores cantam pelo bico dos pássaros. / Não chores, árvore, é a chuva.” [As Árvores, composição coletiva recolhida por Maria Alberta Meneres]

“O meu companheiro é o Miguel / Miguel que teve bom num ponto / Ponto difícil de escalar é o Himalaia / Himalaia é um nome redondo / Redondo como bola que rebola / Rebola uma bola por Lisboa / Lisboa é a cidade onde eu vivo / Vivo em S. Sebastião / D. Sebastião morreu numa batalha / Batalha incrível é a da poluição / Poluição que mata os rios / Rios de ventos gelados que correm no norte / Norte é o contrário de sul / Sul atropelado pelo gigante do bem / Bem é o contrário de mal / Mal pensado era pensar nos jacarés / Jacarés que comem pessoas / Pessoas analfabetas eram as de há 500 anos / Anos sem nenhuma esperança / Esperança que não chega / Chega como uma flor.” [Madalena, recolha de Maria Alberta Meneres, O Poeta Faz-se]

“As pedras falam? pois falam / mas não à nossa maneira, / que todas as coisas sabem uma história que não calam. / Debaixo dos nossos pés / ou dentro da nossa mão / o que pensarão de nós? / O que de nós pensarão? / As pedras cantam nos lagos / choram no meio da rua / tremem de frio e de medo / quando a noite é fria e escura. / Riem nos muros ao sol, / no fundo do mar se esquecem. / Umas partem como as aves / e nem mais tarde regressam. / Brilham quando a chuva cai. / Vestem-se de musgo verde / em casa velha ou em fonte / que saiba matar a sede. / Foi de duas pedras duras / que a faísca rebentou: / uma germinou em flor / e a outra nos céus voou. / As pedras falam? pois falam. / Só as entende quem quer, / que todas as coisas têm / uma coisa para dizer.” [As Pedras, Maria Alberta Meneres]

“Foi um sonho que eu tive: / Era uma grande estrela de papel, / Um cordel / E um menino de bibe // O menino tinha lançado a estrela / Com ar de quem semeia uma ilusão / E a estrela ia subindo, azul e amarela, / Presa pelo cordel à sua mão. // Mas tão alto subiu / Que deixou de ser estrela de papel. / E o menino, ao vê-la assim, sorriu / E cortou-lhe o cordel.” [Brinquedo, Miguel Torga]

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