1 DE AGOSTO. Temos andado a implorar verão para as nossas férias. Finalmente, a atmosfera parece compadecer-se e vai trazê-lo amanhã, mas enrolado numa onda de calor muito intensa. As autoridades afadigam-se para os fogos que se adivinham e dão conselhos de rotina sobre comportamentos.
2 DE AGOSTO. Temperatura máxima em Castelo Branco ultrapassa 42 ºC - todos os valores que apresento são provisórios.
3 DE AGOSTO. Temperatura máxima registada em Beja 44; Portalegre 41; Lisboa: 42. Recomendam que evitemos sair de casa onde, em demasiados casos, não há proteção. Na Volta a Portugal, a caravana percorre mais de 200 quilómetros entre Beja e Portalegre. O ciclista Gustavo Veloso acha que a etapa devia ter sido anulada e conclui que “os ciclistas do pelotão são sobreviventes”. Também o são, digo eu, quem os vê passar.
4 DE AGOSTO. Lisboa 44 ºC; Castelo Branco 43. Estes valores da temperatura são registados em estações instaladas segundo normas antigas adotadas pela Organização Meteorológica Mundial. Termómetro dentro de abrigo de madeira, arejado, a um metro e meio de solo relvado. Não podemos comparar a temperatura ali registada com a obtida, por exemplo, num local a 50 centímetros de um areal ou de um qualquer asfalto. Na verdade, tomando banhos de ar tão quente, o organismo humano reage disfuncionalmente para se manter homotérmico. Lemos 51 ºC num expositor, mas não conhecemos a localização do sensor.
5 DE AGOSTO. 4º dia da onda de calor. Serra de Monchique continua a arder. A segunda frente de catástrofe (impactos na saúde) impõe-se com elevados excedentes de óbitos produzidos pela exposição ao calor. O assunto não merece cuidados.
6 DE AGOSTO. 411 - número de pessoas que ontem e hoje perderam (prematuramente) a vida por sobrecarga térmica - valor obtido por diferença entre o número de óbitos observados nestes dias e nos mesmos dias de 2017, também muito quentes. Total, por defeito, para os cinco dias: 545 mortes em excesso - dados provisórios arrancados por dois jornais à Direção Geral da Saúde. Os canais de televisão não fazem caso. Preferem repetir vezes sem conta as lágrimas defuntas de folhetins passados. O inferno dos fogos é o seu paraíso.
7 DE AGOSTO. Fim da onda de calor, mas o fogo resvala para os concelhos de Silves e Portimão. Em 2003, arderam 41 mil hectares na zona; neste rondará 28 mil. Um jornalista atreve-se a insinuar mais um impensável. Pergunta ao ministro: “Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?” Podia ter estranhado a despreocupação pelos óbitos excedentários gerados pelo calor, mas não. Tomou o caminho de lodo que secundariza a vida humana.
10 DE AGOSTO. Estamos muito cansados. Cansados de gritar contra o mesmo. Cansados de repetir frustrações que queimam a esperança. O espetáculo político-televisivo prossegue, agora à procura de agulhas na selva da culpa.
20 DE AGOSTO. Após a catástrofe de 2003 fizeram o contrário de reordenar. E até aumentaram a febre de eucaliptizar uma floresta ao Deus-dará e tão inutilmente retalhada. Os eucaliptizadores também são “donos disto tudo”.
31 DE AGOSTO. Uma persistente força de inércia conduz o país. Na ideologia e nas opções de intervenção. Quem tem dirigido os seus destinos trabalha sobre (e para) o instante; limita-se a reagir ao que não prevê nem previne. Condiciona toda a sociedade e o seu desenvolvimento com filosofias de gestão num pântano. O país não se acha e não acha remédio.
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