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Cata-Ventos: É bordar e receber?

Costa Alves - 04/07/2019 - 9:21

"Bem-vindo à nova marca de Castelo Branco” - “Bordar e receber”. Assim rezam os placares que prolongam nas ruas o que foi anunciado como “a” marca identitária da cidade - ou, baixando o teto, “a maior”.
“Bordar e receber” é uma boa frase. Tem artifícios de marquetinguista e até esvoaça com asas de poesia. Mas, terá mais? Será mais do que flor de retórica que seca com o passar? Será que ilustrará e potenciará o que a cidade fez e quer fazer? Castelo Branco irá mesmo bordar e, acontecendo, irá fazer de bordar uma indústria e uma indústria cultural com atratividade? Para aumentar o “receber” desta equação tem que bordar muitíssimo mais e, antes disso, tem que investigar para conhecer e difundir a história e a cultura do seu bordar. Por agora, conhece pouco e tem equívocos por deslaçar. Os Bordados de Castelo Branco não tiveram (e, muito menos têm na atualidade) produção para corresponder a uma hipotética procura que possa sustentar a sua eleição como “a” (ou “a maior”) marca referencial da cidade.
As cidades afirmam-se com os tecidos histórico-culturais e económicos que as singularizam. A Câmara Municipal elegeu os Bordados e julgo que é uma decisão gravemente redutora. Castelo Branco não tem monumentalidade, figura e atividade de relevo com potencial de atratividade que permita eleger alguma por si própria. A cidade pode impor-se pela diversidade de registos histórico-culturais que possui. Conjuga os períodos pré-histórico e da ocupação romana com as expressões, em nacionalidade portuguesa, do povoamento sob direção templária. Tem registos da expansão dinisina até amuralhar o sopé do monte e da abundante expressão quinhentista, dentro e fora da vila-fortaleza. Tem sinais (ainda mal estudados e interpretados) de individualidade judaica. Tem o Paço do Bispo e o seu Jardim (Monumento Nacional), o cruzeiro de S. João (também), entre outros sinais do seu histórico caminhar. Por exemplo: a ermida da Senhora de Mércules, o monte de São Martinho e o Barrocal que, em vez de Parque Natural da rede da UNESCO, está a ser transformado em parque urbano. E temos o património imaterial: João Roiz, Amato Lusitano e outras figuras com protagonismo histórico e cultural, como Afonso de Paiva, Faria de Vasconcelos, Francisco Tavares Proença Júnior, Vieira de Almeida, Jaime Lopes Dias. E criadores como António Salvado, José Manuel Castanheira, Manuel Cargaleiro - Museu Cargaleiro, tão paralisado e com tantas obras que não trata, não mostra, nem põe a circular pelo país! 
Os Bordados são uma das várias qualificações da cidade, cada uma com as suas caraterísticas e valores intrínsecos que devem ser conjugados num todo. E já nem falo de novas matérias de afirmação que, em tempos, não foram aceites: as conferências internacionais periódicas, inspiradas em Amato Lusitano, sobre o estado da arte em especialidades da Medicina; o projeto-piloto de estudo e monitorização dos impactos dos extremos do calor e do frio; a afirmação da cidade como cidade de cultura da poesia e da música - esta, baseada na qualidade das suas escolas especializadas.
Tudo isto para defender uma opção que integre articuladamente todas as valências com um discurso e intervenções que as afirmem. Uma opção por uma estratégia que dê realidade e coerência ao que a cidade foi, é e quer para se desenvolver, através das suas singularidades.
É - só - “Bordar e receber”? Acho que temos de bordar nos muitos tecidos que a cidade tem. Não apenas num. Para poder receber.

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COMENTÁRIOS

Pedro Santos
à muito tempo atrás
Concordo. Veja-se o exemplo do Fundão, que pegou no pequeno e muito sazonal fruto da cereja e o tornou atractivo, ao ponto de virem pessoas de todo o País e até de fora para os vários eventos em torno do fruto. Por muito bonitos que sejam os bordados de Castelo Branco, alguém vem faz 200, 300, 400kms para ver bordados? Com uma história magnífica, uma natureza esplendorosa e um povo maravilhoso, foi o melhor que se arranjou? E não deve ter ficado barata a ideia!
Enfim, já alguém me dizia, que se os políticos fossem competentes estava a ganhar bem mais numa qualquer multinacional...