Vale a pena reter e pensar sobre o que diz Hélia Correia, Prémio Camões de 2015 pelo conjunto da sua obra como romancista, poeta e dramaturga. Refiro-me à entrevista que concedeu ao Jornal de Letras de 24 de outubro, a propósito do lançamento do seu último romance “Um Bailarino na Batalha”. Achei palavras que mexem e remexem no que venho sentindo. Soube-me a pão ensopado em mel.
Diz Hédia Correia: “Estamos numa época em que era preciso pensadores, que não há. E por isso anda tudo perdido.” Destaca o pensamento de José Gil - acrescento Eduardo Lourenço e Boaventura Sousa Santos. Não vislumbro quem mais tenha pensado a sociedade, pensando o país, o mundo e a vida. Em contrapartida, a televisão e as ditas redes sociais encurtam os nossos espaços de comunicação e diminuem o gosto de ler e pensar. Reduzem o conhecimento ao máximo de laconismo.
Estamos numa situação em que, diz Hélia Correia, “não podemos compreender o que se passa.” Julgamos (e julgámos) fechados dentro do social e politicamente correto, o que, “sob a capa da bondade, foi (…) um veneno.”
Com elites fechadas em esferas de insociabilidade, de comunicação social simplista, redutora e comercial e de eleitos medíocres, vegetamos dentro do pântano com gestos evasivos e erráticos. Também como eleitores medíocres. O capitalismo do deus-dinheiro ávido e tentacular tudo controla com a cultura da acultura a dominar os espaços comunicacionais. A desinformação, a mentira como informação, as ditas “fake news” (como se não houve tradução) estão armadas e a expandir-se.
Novamente Hélia Correia: “Estamos a descer, como os romanos desceram. A vomitar para comer mais.” Depois, vamos “para os ginásios correr em máquinas, quando [podíamos] andar no chão.”
Chão, não temos. Não queremos ter chão ou não o encontramos. O chão de vidas que se interrogam e interrogam, que procuram respostas, umas com as outras. Na verdade, não nos sentimos em comunidade, nem muito menos a fazemos nem a queremos fazer. Não temos ideais. E nem falamos de ideologias cuja morte foi decretada. Temos desconfiança e nevoeiro. Estamos num mundo e num país em extremos de desigualdade, egoísmo, interesses e corrupção. Com muitos riscos que agora nos ameaçam com armas que outros já utilizaram cometendo barbáries. Em vez de aprofundarmos e alargarmos a democracia, estamos a abandonar muitas pessoas e a atirá-las para fora à mercê de salteadores que as levem.
Hélia Correia: “Falta capacidade de inovação, o que é visível até nas pulsões retro da moda, em coisas que me parecem obscenas, como vestir calças esfarrapadas. Esse é um emblema da decadência. A abundância estraga o indivíduo, hipervaloriza-o e desequilibra-o. É um desarranjo da forma de viver.”
“As pessoas têm medo de se exprimir. (…) Estão contidas porque sabem que não podem dizer certas coisas.” Há “uma censura social”, mas “o ódio, o racismo, não se curam porque não se nomeiam. Acumulam-se dentro e tudo fica pronto a explodir.” Por isso, “só a palavra dita, solta, dialogante, a capacidade de argumentação pode fazer pensar.”
“É preciso retomar a palavra.” Criar comunicação e aprofundá-la e alargá-la contra a insidiosa (in)civilização que as “fake news” estão a promover. Tendem a reproduzir cabos de guerra na razão direta da opinião sobre o que não sabem. Já subiram ao poder em vários países. E, pelo andar da carruagem, ainda terei de voltar aos anos 60 para caminhar (de forma diferente, é certo) até abril de 74.