Aqui está uma mensagem notável lançada em momento crucial, a poucos meses da nova Cimeira do Clima, a realizar em Paris. Depois do fracasso sucessivo das que foram saltando de Quioto para Copenhaga, Durban, Cancún, Doha, Lima, não temos uma indicação clara de que o objetivo de defesa da nossa casa comum pode ser atingido: um acordo global sobre a diminuição e regulação das emissões de gases com efeito atmosférico de estufa que provoca o aquecimento do nosso sistema climático.
Saudada por muitas fontes como “uma grande sacudidela”, a primeira encíclica “totalmente dedicada à ecologia” assume “os melhores frutos da pesquisa científica atualmente disponível” concluindo que “há um consenso científico muito consistente”.
A rejeição da visão antropocêntrica é muito clara, recordando que não podemos encarar o planeta como se fôssemos “seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la.” Como reflexo, “esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra”, de que “o clima é um bem comum, um bem de todos e para todos” e de que “o nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.”
O Papa designa esta prática como uma “violência” cujos efeitos se vislumbram “nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos.” Diagnosticando os problemas, assinala os culpados que, mantendo os “hábitos autodestrutivos” regulados por interesses económicos, respondem sempre com atraso à “deterioração global do ambiente” e quando “já se produziram efeitos irreversíveis”.
Segundo muitas interpretações, trata-se de uma declaração de confronto com os grandes interesses económicos e com os governantes dos países mais poderosos - aqueles que determinam a utilização dominante dos combustíveis fósseis. Defendendo uma mudança radical de estilo de vida, Jorge Bergoglio quer contribuir para evitar que a Terra se vá convertendo (a imagem é direta) “cada vez mais, num imenso depósito de porcaria”. “Porcaria”, entenda-se em terra, no mar e na atmosfera.
Para o Papa Francisco, “as principais vítimas são os pobres” de um mundo em que “o interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e a manipular a informação para não ver afetados os seus projetos”. Um mundo onde os “gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo”.
Trata-se de uma avaliação na raiz para equacionar as consequências e a sua previsão: “é gravíssima iniquidade obter importantes benefícios fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental”. Os principais efeitos estão determinados há muito: aumento da instabilidade do funcionamento da atmosfera originando fenómenos extremos mais frequentes e intensos, subida do nível do mar, perda de biodiversidade.
A problemática da dívida externa dos países mais carenciados é denunciada e torna-se ainda mais aguda quando migra para Norte e se instala na Europa, em especial na do Sul. Segundo o Papa, a dívida “converteu-se num instrumento de controlo, mas o mesmo não ocorre com a dívida ecológica” dos países ricos que continuam a alimentar o seu desenvolvimento “à custa do presente e do futuro” dos mais frágeis.
A encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”), título que remete para a primeira frase do “Cântico das Criaturas” de Francisco de Assis, aceita e propõe o “urgente desafio de proteger a nossa casa comum (…) na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”. Bem-vinda seja!
[Reproduzo este texto publicado neste jornal em julho de 2015.