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Cata Ventos: Entre os rios das pedreiras de Borba

Costa Alves - 13/12/2018 - 9:50

Entre dezembro de 2000 e março de 2001, vivi dias fechados em casa do então Serviço Nacional de Proteção Civil. Os sistemas frontais atravessavam os EUA, entravam no Atlântico e evoluíam com velocidades de deslocamento que, mal os olhos piscavam, derramavam-se grávidos de chuva no nosso país. Considerando os riscos mais do que conhecidos e sofridos, as consequências não foram inesperadas: cheias do Mondego em Coimbra e Montemor-o-Velho, cheias do Tâmega em Amarante e em Chaves, cheias do Douro no Porto e em Peso da Régua, cheias do Cávado em Barcelos e em Águeda, Ovar, etc, etc. Consequência maior: o colapso da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios que retirou da vida 59 pessoas.
Temos vivido, desde 2008, numa acalmia de situações geradoras de cheias em Portugal Continental. Acalmia que já soma 10 anos, intervalo de tempo pouco comum para o histórico de cheias que, desde 1960, deixaram muitas marcas, especialmente em 1962, 1967, 1981, 1983, 1989, 1997, 2000-01 e 2008.
No mesmo período, em que aumentou o intervalo de tempo entre duas cheias, aumentou a frequência de ondas de calor e das suas duas frentes de calamidade. Aumentou também a frequência de secas, e de episódios de chuva intensa de curta duração. Houve incêndios de grandes dimensões, inundações, deslizamentos de terra e quedas de árvores, efeitos tremendos da agitação do mar nas zonas costeiras. O aumento da mortalidade por exposição ao calor extremo é muito grande desde 2003 e, repito-me, não conhecemos os dados dos excessos de óbitos desde 2014. E os três últimos anos terão registado excedentes elevadíssimos.
O desmoronamento da estrada de Borba faz recordar o colapso da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios, no dia 3 de março de 2001. Quase 17 anos os separam, mas parece que nada os distancia. Em ambas as catástrofes, embora de naturezas e causalidades diferentes, aconteceu o inacreditável. Inacreditável para nós, cidadãos que temos o nosso (difícil) percurso de vida; e inacreditável para os organismos de um Estado que não está organizado nem se organiza para analisar e detetar riscos e vulnerabilidades, fiscalizar, planear, ordenar, prevenir.
Em causa, nesta catástrofe, estão sucessivos Governos e Administração Central, Câmara Municipal de Borba e empresas de extração de mármore. Passaram quase 17 anos, mas a atitude não mudou. As empresas de exploração das pedreiras escavam até onde querem. A fiscalização não atua ou atua incompetentemente, os avisos existiram insistentes e expressos de várias formas, a autarquia não liga ou não confessa incapacidade técnica para avaliar.
Segundo o coordenador do departamento de geociências da Universidade de Évora, “a cada vinte ou trinta metros abriu-se uma pedreira nova”. Naquele veio de mármore de 27 quilómetros quadrados, que se estende pelos concelhos de Estremoz, Borba e Vila Viçosa, há 271 cavidades, 24 ilegais, mas apenas 70 são exploradas. “São tantas e estão tão concentradas que raramente se consegue ir a mais de cem metros de profundidade, não têm diâmetro para ir mais fundo.” Como nunca houve um plano de ordenamento para a zona, cada um escavou por onde quis. Fiquei a saber que apenas um técnico fiscaliza as cerca de 400 pedreiras que há no Alentejo.
O Estado e a sociedade não criaram condições ao longo de décadas para sinalizar os riscos e as vulnerabilidades face a esses riscos. Os sucessivos governos reagem ao que acontece; não trabalham para (e sobre) o futuro.
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