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Cata-Ventos: Esquecer 2022?

Costa Alves - 29/12/2022 - 10:34

Talvez seja melhor tentar esquecer 2022. Um ano com uma guerra a espirrar inflações e estilhaços de mau viver; com uma seca a negar água e sede de equilíbrio e crescimento; com um verão a escaldar semeando cinzas e retirando prematuramente da vida pessoas indefesas perante tais extremos de calor; e, agora, com dois episódios de chuva que parece terem escolhido a Grande Lisboa por conta dos seus (e nossos) pecados.
Tentar esquecer. Ou, melhor, esquecer, pois tal proeza normalmente não nos faz doer a cabeça. Somos especialistas. Somos eruditos em saber esquecer o que nos doeu. Cientistas de artimanhas para saber esquecer. Como quem cumpre uma lei: afastamento traz esquecimento. E, com a velocidade a que gira o planeta destas nossas vidas, o afastamento não precisa de muitos passos para chegar à casa do esquecimento.
O drama das inundações na Grande Lisboa já apagou as aflições com as consequências da guerra e das crónicas secas e ondas de calor. São tão crónicas que nem devia trazê-las para aqui. É como se ainda fosse aos baús de 2020 e 2021 buscar o que já não nos lembramos bem do que passámos com uma tal Covid. Confinamento? Uma vaga lembrança e ala que se faz tarde. Nem falo de outras secas, de outras ondas de calor mortíferas para a saúde e para a floresta, de outras inundações. Nem das alterações climáticas que, agora, de tão badaladas, são para esquecer; como fazíamos antes de ocuparem os títulos. Sou mesmo um atrasado. O que importa é o agora; não é essa a forma de estarmos a viver - matriz da nossa civilização no estado atual da sua evolução? O instante é que manda, o resto é metafísica de incrédulos.
Enfim, as consequências da guerra já habitam connosco e até já podemos esquecê-la. Quando voltarem as catástrofes atmosféricas, talvez lembremos (vagamente) este 2022 - 2017 já lá vai e 2016, 2013, 2005, 2003 é como se não tivessem existido. Nada a aprender e muito menos a fazer de verdadeiramente transformador. Qualquer dia até estas cheias serão sublimadas. Não é isso que faz a nossa maneira de estar? Quando voltarem, gritaremos outra vez contra o que tínhamos prometido fazer e não fizemos e, pronto, qualquer governo seguirá o seu caminho em paz. É como se fossem um acidente de percurso. E, como somos bons a socorrer, acabamos por nos consolar com o reconhecimento do nosso multiplicado heroísmo. E, mais uma vez, as culpas e desculpas serão disseminadas pela rama dos problemas. Daqui a uns meses já cá não está quem falou. E, quem gritar, voltará a sufocar os gritos nas almofadas da resignação.
Enfim, podemos pouco. E a forma como estamos na sociedade, ou como gostamos de estar na sociedade, ou como somos forçados a estar na sociedade, não permitem que o pântano se evapore. Teríamos de ter, muitos, quase todos, uma outra atitude para mudar uma sociedade injusta, fraca, incompetente e onde cada vez mais a governação é pertença de calculismo, superficialidade e incultura. Uma sociedade que já não conhece nem reconhece idealismo. Que transformou a democracia numa rotação, cada vez mais indisfarçada e banalizada, de rotina e lugares-comuns. Cético? Estou desejoso de não o ser - há demasiado tempo.
Hoje é o antepenúltimo dia de um ano velho e cansado que promete continuar. Como diz a poesia de Carlos Drummond de Andrade, “o ano passado não passou, / continua incessantemente”. Apesar disso, confiemos na “Receita de Ano Novo” que o poeta brasileiro aconselha: “Para ganhar um ano-novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo novo.”

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