O deus dinheiro teve várias formas e modos de governar no mundo. Formas e modos mais mansos ou mais violentos, espaços mais pequenos e espaços muito extensos, mas, hoje, o seu domínio é global. Algumas ilhas, pequenas e grandes, ainda não estão nos eixos, ainda estão renitentes, mas a operação está lançada. O petróleo da Venezuela já cá canta, a compra do gás liquefeito e rearmamento da UE foram abençoados naquela partida de golfe na Escócia em que Van der Leyen esperou, pacientemente ajoelhada, que Trump desse a última tacada. A América - designada por Latina - volta a ser, quase toda, o quintal das traseiras. A Gronelândia está já na mão de semear mais bases e as cobiçadas rotas do Ártico estão a ser abertas. O aquecimento global continuará a fazer o trabalho de servir a quem o nega.
Dizem que só nos falta pagar o ar que respiramos. Não seria tão ingenuamente perentório. Penso nos custos dos efeitos do aquecimento global e das alterações climáticas e não digo que o ar que respiramos, cuja composição foram modificando, não nos é cobrado. Sempre precisámos de tapar o sol com a peneira de não ver.
Penso na Antártida e tremo. Bem sei que não está na ordem do dia dos tempos mais próximos, pois ainda é muito gelo para derreter e as portas de assalto ainda não estão abertas. No entanto, quando o degelo acelerar, e há muitas incertezas, não digo que da água dos seus recursos não queiram beber. É muita riqueza lá em baixo, como também na Gronelândia, e o deus dinheiro não perdoa. Como se tem visto, o que é património do planeta não tem seguro de vida eterno.
E penso na água. As alterações climáticas estão aí. Tempestades que precipitam quantidades diluvianas ou secas e ondas de calor mais extensas e intensas. Problemas complexos que são tratados com meia bola e força ou, simplesmente, rechaçados com negacionismo. E, como a gestão da água é olhada de soslaio, as novas tecnologias do deus dinheiro não olham a meios. Os seus centros de dados engolem quantidades inimagináveis de água e a ordem do dia é para acelerar. A IA não pode esperar. Alimentar a voracidade dos centros de dados é prioritário e os consumos clássicos de água e de energia que se amanhem.
Ora atente no quadro que o movimento proTEJO nos apresenta, a propósito dos projetos de construção de dois centros de dados anunciados para o concelho de Abrantes - Alvega e Pego - ambos em fase de licenciamento. Segundo o movimento proTEJO, o cenário mais favorável de consumo de água em plena capacidade desses dois futuros centros de dados “é de 3,6 milhões de litros por dia - correspondendo a 1.314 hm3 por ano, ou seja, cerca de metade de 2.700 hm3 que é o atual caudal mínimo anual afluente de Espanha nos termos da Convenção de Albufeira”. E nem falo da azáfama que por aí vai de plantar painéis solares em partes fecundas do território.
Também não quero entrar no campo de minas e armadilhas em que as guerras se constituíram. Mísseis e drones exibem as suas macabras inteligências como buldózeres de devastação de vida. O deus dinheiro está sedento. Furiosamente ávido. É uma fase da evolução da humanidade difícil de entender e impossível de inverter no horizonte atual. E, quando o deus dinheiro avidamente se enfurece, os direito humanos é que pagam. “A banalidade do mal” cresce, Hannah Arendt. Não há idealismo nem contraponto humanista com capacidade para enfrentar a barbárie. Estamos cercados. Por agora.