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Cata-Ventos: Eunice Foot e o efeito de estufa

Costa Alves - 08/01/2026 - 9:04

Por entre a fumarada que em meados do século XIX invade as cidades, perfila-se uma mulher, cientista amadora e ativista (já naquele tempo) pelos direitos das mulheres norte-americanas: Eunice Foote (1819-1888). Viveu num período em que a Revolução Industrial consagrava a metamorfose do feudalismo em capitalismo.

Fez diversas experiências e detetou o problema que só na década de 1980 foi consagrado e operacionalizado pela comunidade científica e só veio a ser aceite politicamente e socializado, tarde e más horas, já neste século XXI. Eunice Foote formulou o que as suas experiências laboratoriais comprovaram: o fenómeno a que hoje chamamos efeito atmosférico de estufa gerado pelo aumento da concentração de gases com esse efeito, sobretudo o dióxido de carbono (CO2). Publicou as suas conclusões em 1856 (já lá vão 189 anos) e rapidamente foram esquecidas.

Usou dois cilindros de vidro expostos à radiação solar e colocou termómetros lá dentro. Num deixou ar comum; no outro, introduziu CO2 e verificou que o cilindro com dióxido de carbono aqueceu mais. "O recetor contendo este gás tornou-se muito aquecido - muito mais [...] do que o outro - e ao ser removido [do Sol], demorou muito tempo para} resfriar". Em novembro de 1856 defendia as suas conclusões num texto publicado no American Journal of Science and Arts com o título “Circumstances Affecting the Heat of the Sun’Rays”. Defendia que o dióxido de carbono e o vapor de água aqueciam mais do que outros gases quando expostos à luz solar e que uma atmosfera com mais CO₂ poderia provocar temperaturas mais altas. E disse ao futuro que hoje temos: "Uma atmosfera com esse gás poderia dar à nossa Terra uma alta temperatura". Era a perceção experimentalmente comprovada e uma afirmação clara do aquecimento climático com que hoje estamos confrontados.

Mas, a história das ciências tem destas injustiças. Quem ficou como referência na história da física desta problemática foi o irlandês John Tyndall (1820-1893). Não há provas de que este cientista tenha conhecido as conclusões das experiências de Eunice Foote, embora haja indicações que sugerem o contrário. Fica esse mistério. Faça-se, no entanto, justiça ao físico irlandês, pois deu um enorme impulso ao conhecimento da física da atmosfera, através das suas pesquisas relativas à radiação infravermelha. Secundou os resultados das experiências que Foote tinha efetuado e descobriu a importante função de absorção dessa radiação pelos diversos gases presentes no ar.

Da biografia desta cientista autodidata sobressai também o seu papel ativista pelos direitos das mulheres norte-americanas, possivelmente por ser a única cientista que, por ser mulher, tinha interdições na expressão pública das suas descobertas. Nomeadamente, participou ativamente, com o marido Elisha Foote, advogado e matemático amador, na Convenção de Seneca Falls, realizada em 1848, que foi um dos primeiros grandes encontros pelo sufrágio feminino. Mais tarde, assinou a Declaração de Sentimentos, que exigia igualdade de direitos entre mulheres e homens.

Para quem se bate desde os anos de 1990 pela inversão da política que gera o aquecimento global, conhecer e revelar o seu lugar na história da Física, é um prazer. Para mais, numa fase em que se verifica um acirrado confronto geopolítico sobre a utilização da. energia. Trump impõe expansão da utilização dos combustíveis fósseis, designadamente à União Europeia. Por outro lado, alguns setores capitalistas europeus contrapõem-lhe investimentos fortíssimos nas energias renováveis nos países de clima mediterrânico, nomeadamente no nosso país e com bastante evidência na Beira Baixa. Foram vastos territórios com painéis com os seus critérios e com a colaboração dos governantes. [email protected]

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