Conta Irene Vallejo no seu excelente ensaio “O Infinito num Junco” (Bertrand Editora, 2020) que o exercício da profissão de orador tinha ensinado a Antifonte (séc. IV-V aC) “que os discursos, se forem efetivos, podem influenciar poderosamente o estado de espírito das pessoas, comovendo, alegrando, apaixonando, sossegando.” Um dia, colocou um aviso anunciando que “podia consolar os tristes com discursos adequados” e passou a usar o fármaco da palavra para atenuar, sarar, curar as feridas da angústia e da desolação. Era um dos dez consagrados oradores do seu tempo helénico e hoje é assinalado como um defensor indomável da igualdade e da democracia para todos, incluindo os não gregos.
Passados mais de dois mil e quatrocentos anos, que vemos na praça pública? Palavras sem som, palavras cegas, palavras impotáveis, palavras sentenciais, palavras ruidosas, palavras com artes de artimanhas. Acham que Antifonte poderia falar e curar assim?
Olhem para as palavras de ministros (sejam de primeiro, segundos ou terceiros), de parlamentares (e em arenas inquiridoras), de presidente da República e outros comentadores televisivos todos a vibrar na imediatista bolha mediática; não esquecendo as sistemáticas violações de segredos de Justiça. Todos sem pensamento (quanto mais pensamento estruturado), sem visão do presente (quanto mais de futuro), sem fundo histórico-cultural, técnico e ideológico, sem imaginação, deontologia, ética e, quanto à estética, é bom não esquecer.
E nós por cá vamos amadorrados entre teclados e televisores que falam por nós, substituindo livros, estudos, raciocínios, pedagogias, ideias e ideais. Só com opiniões; gritadas ou aduladoras. Isto é: com aparências, primeiras impressões, falácias, raciocínios capciosos, dize-tu-direi-eu, informação falsa ou falsificada. Aplaudimos ou rejeitamos como se cada um dos lados fosse o guardião da salvação, sem conseguir ver de outro miradouro que não daquele que os ecrãs projetam. E, claro, julgamos que não há futuro sem nós.
Não assumimos o que o adagiário popular reza, mesmo que mais perto de nós do que as terapias da fala de Antifonte: “É melhor pensar e falar do que falar e pensar”; “No muito falar há muito errar”; “Entre falar e fazer, muito há que dizer”; “Mais vale calar que mal falar”; “Falar sem cuidar, é atirar sem apontar”; “Se o bem falar é ouro, o mal falar é lodo”.
O que é melhor não é considerado pelo modo como comandam(os) as nossas vidas. Só depois do falar é que pensamos nos seus efeitos e, não conseguindo furar as paredes blindadas do mau e mal falar dominantes, antes calar que repetir. A civilização atual encaminhou-nos para o pouco, para o poucochinho do simplex, mas é no complex que a realidade existe e só dobradas as suas espessas montanhas é que há horizonte.
Falamos sem respeito pelas palavras, pela dignidade das palavras e da organização das palavras para traduzir e ajudar a produzir inteligência e melhor conhecimento da realidade. Preferimos o conflito e o confronto deformado e deformador de factos, causas e valores. O lado perversor das redes sociais veio multiplicar a atomização instalada e a sabedoria anda tresmalhada pelas ruas da amargura de uma democracia que passa muita fome e arrisca a sua razão de ser.
Há muitas maneiras de fazer falar o falar. Não pela calada nem pró boneco, nem a atirar palavras para o ar a ver se alguma acerta. Como escreve Alexandre O’Neill no poema “Fala”: “Fala como se falar fosse andar”.