Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Cata ventos: Fazer de conta

Costa Alves - 10/10/2019 - 9:13

Ando na vida há dezenas de anos e não tenho emenda. Farto-me de fazer de conta. Como já disseram mil vezes que irão fazer o que não farão, já não tenho espaço para mais feiras de enganos. Já não tenho alibis que venham de mim para mim e, no entanto, cá continuo tentando sinceridades e desobscuridades. De tão abusada, mas sempre opaca, a tão incensada “transparência” já perdeu todas as suas potencialidades e quase nada significa. Tenho de ir fingindo que sim, mas que também.
Portanto, tenho de fazer de conta que pinhais e eucaliptais não são barris de pólvora espalhados pela floresta e que não temos trabalho para dezenas de anos.
Também tenho de fazer de conta que o Acordo de Paris não vai entrar em vigor daqui a três meses e que a atmosfera, assim tão mais quente, é que faz bem e não está nada doente. E, já agora, faço de conta que não fui à manifestação pelo clima convocada por miúdos da secundária. E finjo que vi quem não estava lá: por exemplo, os e as jotas dos partidos que agora (só agora) fazem declarações de horror às alterações climáticas.
Olho para o lado e passeio pelo fim da tarde. Assisto ao concerto dos pardais nas árvores da escola Nuno Álvares. Não posso perder o falatório de antes que o sono feche o bico desta multidão de pássaros que vêm de onde não consigo saber. São como crianças a brincar. Aqui, estou; não me disfarço nem faço de conta.
Sigo pelas ruas quase desertas e faço de conta que o chafariz de São Marcos não nasceu no século XVI. A parede lateral tem fissuras de ruir, mas faço de conta que nenhuma ameaça o condenará a ainda pior. Falamos há tanto tempo da situação deste monumento e quem manda tem os olhos e os ouvidos tapados. Finjo que deitar mais chuva neste molhado não cansa. Adiante.
Também faço de conta que não vi o Ponsul reduzido a fio de água e poças estagnadas polvilhadas de viscosidades esverdeadas e rochas que nunca tinha visto a ladeá-lo. E apago da memória as fotografias que mostram o nível do Tejo uns quatro metros abaixo do habitual, na zona de afluência do Ponsul, entre as barragens de Alcântara e Cedilho. Finjo que não noto que Espanha faz o mal que quer na bacia do Tejo e ainda manda em Portugal e no governo. E, claro, finjo que não sei que as autoridades (?) do Estado ficam paradas, como se o quartel-general não pudesse sair de Abrantes. Isto é, finjo-me de cidadão sem consciência de que o é; ou de cidadão que não o quer ser.
Também faço de conta que não interessa o que tenho dito sobre o Museu Tavares Proença. Aquilo é para se ir apagando à medida que o abandono avança.
Continuando o passeio, entro na rua D’Ega e revejo a estrela de David pregada no chão. Recordo as ficções criadas sobre se Castelo Branco teve uma judiaria como as outras e, mais uma vez, faço de conta. E desvio os olhos do estado de degradação da zona mais antiga que, assim, vai acabar por … acabar.
À distância, vejo sombras de pedra na serra da Gardunha, ossos da pedra que resultam do que fazemos e não fazemos. E nem quero lembrar-me da albufeira da Marateca - de onde nos vem a água que também é torturada por atividades com pesticidas, fósforo e resíduos orgânicos que, para já, tornam o seu tratamento mais oneroso.
Fazendo de conta que no domingo não afluí aonde afluí, não julguem que este teatro de estar sempre a fingir não cansa. Cansa e dói mas, se não me resguardo no alpendre do fingimento, fico ainda mais perdido. Realmente, há mesmo dias em que não se pode sair à rua. Tenha paciência, leitor! Isto passa.
[email protected]

 

COMENTÁRIOS