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Cata Ventos: Hipnotizados pela língua inglesa

Costa Alves - 28/11/2018 - 8:58

Estamos hipnotizados pela língua inglesa. Enchemos a boca com jactâncias de amor à pátria da língua portuguesa mas, logo na primeira esquina, desandamos para qualquer “evento” que cheire a diversão a ruminar copos na discotoca da língua inglesa. Temos sido assim. Antes, vadiávamos pelas docas emplumadas do francês.

Temos montes de palavras para designar o que fazemos e ao que vamos mas, nos últimos decénios, preferimos meter tudo no saco pseudo-cosmopolita dos anglicismos. Como se não houvesse matizes, tonalidades, gradações, cambiantes, modulações, diferenciações quase impercetíveis, variantes para conhecer e designar as complexidades do nosso viver e que o idioma tão bem identifica e transmite.

Tanta riqueza da nossa língua assim desperdiçada; língua de que, vendo bem, não gostamos. Por exemplo: dizemos “evento” e está tudo dito. O laconismo decora o altar da comunicação. A mau comunicador, se não puder dizer meia, uma palavra basta. No poupar está o ganho. A unidimensionalidade cresce com grande velocidade.

A língua inglesa é a que está a dar. Já sabemos isso há muito tempo e, por tudo e por nada, vestimos a sua camisola e damos-lhe graças. Apetece dizer que a preferimos ao nosso idioma materno.

Temos vocábulos equivalentes, mas a anglofonia veio em nosso socorro e ofereceu-nos a palavra “event”. Corremos logo atrás dela e bastou-nos um pequeno esforço para, fechando a boca com um “o”, ficarmos dispensados de esclarecer que vamos a acontecimentos, como assistir a um concerto ou a uma conferência, ver um filme ou uma exposição. Até já vão falando em “eventos” desportivos, mas ainda não se atrevem a aplicá-lo ao futebol; neste caso, outro galo canta (ainda) mais alto.

Convém esclarecer os leitores mais jovens de que venho de um tempo em que me recusava a “printar” e a fazer “cut” e “paste”. Até que veio um governo a ordenar aos fabricantes que traduzissem estes barbarismos. Falta que venha outro governo para se debruçar sobre a doença epidémica que nos cerca e inunda de mais anglicismo. Por exemplo, as palavras terminadas em “ing” reproduzem-se como coelhos.

Condicionadíssimos pelo falar jornalístico-político dominante, vamos seguindo os seus exemplos reduzindo o vocabulário ao mínimo, usando e abusando de frases-feitas e lugares comuns. E os importadores de palavras em moda na língua inglesa fazem o resto. Quanto mais estereotipados, mais os imitamos julgando que subimos ao céu do cosmopolitismo. Um céu de pretensos “status”, ilustração, superioridade; tudo em modo prático e modernaço. Dá para espalhar cada vez mais a indigência da comunicação. E, claro, dá para se pavonear nadando no poço do provincianismo.

Naturalmente, abandonamos ou esquecemos muitos vocábulos que dão maior expressividade e mais largueza e profundidade ao que pensamos e verbalizamos. A nossa língua tem muitas soluções e custa vê-la assim diminuída, afunilada, estereotipada. A conclusão é óbvia e não preciso de citar os especialistas: resulta em diminuição de conhecimento e empobrecimento da comunicação. Cada língua contém perspetivas sobre as coisas da vida e não apenas designações.

Estarei a exagerar se disser que é uma situação de (neo)colonialidade idiomática? E que a aceitamos sem a mínima resistência? E sem instrumentos para nos defendermos? É notória a falta de uma entidade cientificamente credenciada para nos orientar e, sobretudo, para orientar os maiores multiplicadores do mal que estão a fazer à nossa língua.

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