Há um debate a percorrer a Austrália sobre as causas do que está a acontecer ao país, dramaticamente devassado pelas chamas e, agora, também, por cheias repentinas. Nos últimos anos, já tinham ocorrido situações muito graves durante o verão originadas por secas prolongadas e ondas de calor, sobretudo no Sul do território, onde há regiões com tipologia climática mediterrânica.
As ações de combate a incêndios, incontrolados durante meses, e os seus efeitos catastróficos suscitaram grande preocupação sobre as causas da incapacidade de o Estado australiano proteger o país. Para mais, os australianos não esquecem o comportamento do primeiro-ministro, Scott Morrison, num dos períodos mais atribulados da catástrofe. O (também) líder do Partido Liberal, negacionista das alterações climáticas e defensor da exploração do carvão é surpreendido a gozar férias, mantidas secretas, no Hawai, de onde regressou apressadamente face à avalanche de críticas sobre a sua ausência do país. Desculpou-se invocando que (disse) “não seguro uma mangueira”.
Na realidade, os habitantes das regiões fustigadas, bombeiros e não bombeiros, multiplicavam-se em esforços, nuns casos profícuos, noutros inglórios, para diminuírem os impactos nas pessoas, nos edificados, nos animais, na floresta e em diversos ecossistemas. E bem sabemos, também em Portugal, que estes trabalhos não podem ser feitos por pessoas comuns sem enquadramento. Mesmo assim, dada a incapacidade do sistema de proteção civil, o esforço dos voluntários evitou o muito pior que poderia ter sucedido.
Também causou contestação a realização, em nome de interesses económicos, do habitual espetáculo de fogo de artifício da passagem de ano, em Sydney. A poucos quilómetros, as chamas evoluíam sem tréguas, envolvendo a cidade em fumo, enquanto muitas pessoas buscavam refúgio fugindo para a beira-mar.
O debate sobre as causas da incapacidade do Estado australiano de proteger a comunidade frente aos incêndios gerados, no quadro atual de transição climática, abre caminho para um debate mais profundo sobre as medidas necessárias para abordar seriamente o problema da emergência climática global e no país.
A Austrália tem sido, e continua a ser, um dos maiores emissores de CO2 por habitante. No entanto, desde o começo, em 1992, das negociações promovidas pela ONU sobre os efeitos no clima do incremento de gases com efeito de estufa, ano da Conferência do Rio, os responsáveis políticos dos partidos no poder têm impedido a aplicação das medidas necessárias. E, em torno das negociações do protocolo de Quioto, em 1996-1997, a Austrália decidiu não aceitar a redução das suas emissões com o argumento de que afetaria negativamente a competitividade económica do país.
Mais tarde, na cimeira que conduziu, em 2015, ao acordo de Paris, a Austrália comprometeu-se a reduzir as suas emissões entre 26 e 28% até 2030. Trata-se de uma cedência renitente da sua política negacionista que tem rejeitado as críticas nacionais e internacionais à sua opção de favorecer os combustíveis fósseis.
Recordemos que, para suster o aumento global da temperatura média em 1,5º C, será necessária uma redução mundial média líquida de 58%. Se tivermos em consideração as suas responsabilidades históricas, a Austrália deveria cumprir uma redução de cerca de 70%. Mas, é evidente a sua incapacidade para responder à grave emergência climática global assumindo e concretizando as responsabilidades do seu próprio país.