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Cata-Ventos: Isto não está para doenças

Costa Alves - 22/01/2026 - 9:46

O “Cata-Ventos” desta semana orientou-me para os excedentes de mortalidade que este inverno nos trouxe - também o verão nos tinha ferido com óbitos excedentários gerados por ondas de calor. Faço-o relembrando o texto que publiquei neste mesmo espaço em 29 de janeiro de 2015. É claro que há novos dramas a adicionar aos que descrevo. Por exemplo, grávidas que têm partos ao acaso e bebés que não podem saltar para dentro da vida, pessoas que morrem por não haver transporte, tempos de espera em hospitais que superam exponencialmente os que o próprio Estado se obrigou. Vamos então a extratos do texto que faz agora 11 anos.

Segundo a Direção Geral da Saúde, o número de mortes além do esperado para esta época do ano atingiu quase 2000 pessoas, nos primeiros vinte dias do ano. Uma catástrofe. Uma catástrofe que não é reconhecida nem enfrentada como é. Em alguns hospitais e centros de saúde, as costuras do atendimento rebentaram e houve pessoas que faleceram enquanto esperavam sentadas, durante horas, que a urgência viesse buscá-las. Ao contrário do que concluem os dirigentes do Ministério da Saúde, o problema não é morrer no serviço de urgência; é morrer sem ser atendido, ou atendido tardiamente, no próprio serviço de urgência.

Como temos vindo a perceber ao longo dos anos, as causas são múltiplas: diminuição do número de médicos e enfermeiros, desorganização do sistema de carreiras hospitalares, aumento dos custos da saúde, favorecimento do serviço privado à custa do serviço público, aumento da pobreza e diminuição das condições de vida da população. Até a falta de camas se constituiu como ocorrência impensável e arrepiante associada à subtração, pelos hospitais, de macas aos bombeiros que ficam impossibilitados de responder à chamada de novos doentes. Para não falar das camas ainda ocupadas por pessoas com alta hospitalar. O animal feroz desta forma de não-governar fere, passem os anos que passarem. Na certeza de que não-governar é uma forma de governar. Isto passava-se em 2015 e 2026 só faz pensar em pioras.

O Ministério insiste em constituir como causa principal o surto de gripe definindo a vaga de frio apenas como quadro agravante. É um problema pois, ao contrário da monitorização dos efeitos das ondas de calor no verão, a dos excedentes de mortalidade no inverno é mais difícil de determinar. No entanto, devido a esta incerteza, as medidas de contingência a aplicar para diminuir os impactos devem ser ainda mais cuidadosas quanto às lições a tirar, com intuito preventivo, das experiências de situações adversas anteriores. Em fevereiro de 2012, morreram mais 4 mil pessoas que a média nos anteriores dez anos do mês. E, antes desse ano, existem muitas mais situações para nos orientarem.

Há investigações que apontam para uma constatação lapidar: “Há um frio de morrer em Portugal”, já o escrevia, antes de 1999, o médico de saúde pública Carlos Daniel Pinheiro. Na verdade, há anos que conhecemos esta situação incomparável com a dos países que atravessam invernos muito mais frios. A maior parte das casas em Portugal não está construída para nos defender do frio. Nem das temíveis ondas de calor que desde 2003 nos têm afrontado com frequência e intensidade que não conhecíamos. Em contrapartida, os programas para aumentar a eficiência térmica das habitações foram esquecidos. E, claro, não temos estruturas de proteção civil, nem vontade de a ter, para enfrentar estas situações catastróficas de saúde pública.

Ficamos doentes só de pensar que podemos ficar doentes.

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