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Cata-Ventos: José Dias Pires publica Contraditório dos Peixes

Manuel Costa Alves - 06/02/2025 - 9:00

Desiludido com o esquecimento que a sociedade brasileira do século XVII dedica às suas prédicas contra a escravatura e pelo respeito das comunidades índias (“com os índios e com os rios aprende-se a navegar a vida”), o padre António Vieira escolhe os peixes para auditório e faz, como se fossem palavras de Santo António, o seu Sermão aos Peixes.

José Dias Pires (JDP), constrói um romance com surpreendente imaginação ficcionando um “Contraditório dos Peixes” com reflexões e decisões dos vários habitantes da casa marinha, depois de ouvirem a prédica daquele a quem passaram a chamar “Dono das Palavras”.

O autor coloca-se no lugar dos peixes como se tivessem sentidos e sociabilidade de pessoas. Uma metáfora sobre os humanos. António Vieira elegeu-os por serem capazes de ouvir e de não falar e o autor dá-lhes fala entre si. Quando o pregador decide viajar para Lisboa visando apresentar queixas das desumanidades vigentes no Brasil, onde vivia desde os onze anos, os peixes de rio e de mar decidem acompanhar o navio.

Liderados pelo peixe surubim (“que pensa como o golfinho”), vão refletindo sobre a sua condição: “Invejam o nosso sorriso. Sempre o invejaram porque desconfiam que sorrimos ao compreendermos as suas palavras (…). Invejam a nossa liberdade e a nossa independência”.

Estamos numa casa, casa de água, em que, por exemplo, “os cachalotes, para demonstrar a anuência às palavras ditas pelo surubim, limitaram-se a agitar as enormes barbatanas, pois sabiam que se abrissem as bocas poderiam espalhar o pânico entre os novos companheiros.” Tinham de cumprir a “promessa de todos os peixes: não se comerem uns aos outros.” Até os tubarões assentiram. E, pronto, lá vai o cardume desfilando atrás do navio onde segue o mestre que, por seu lado, vai convivendo com tripulantes e passageiros. A viagem é atribulada por uma tempestade atmosférica que gera condições extremas de vento e agitação marítima. Foi isso que historicamente se passou a bordo da viagem do padre António Vieira e JDP inventa com precisão o comportamento do vento e do mar que põem a nau em risco de afundamento. Acabam por ser salvos por corsários holandeses que, depois de saquearem tudo o que tinha valor, transportaram os tripulantes e passageiros para a ilha Graciosa dos Açores.

Comandado pelo surubim-golfinho, o cardume, esperando que o pregador resolva escolher viver na sua “água prometida”, vai-se desiludindo e manifestando “a impotência de todos em esperar pelo contraditório, sem ter a quem contraditar”. Como sabemos, António Vieira continuará à procura da sua terra prometida alcançando Lisboa para cumprir o desígnio que o levara a partir.

António Salvado interroga-se no posfácio “deste discurso tão original” sobre se este “ponderado testemunho romanceado (…) não estará muito próximo do limiar daquilo a que os estudiosos do fenómeno da prosa literária chamam de obra-prima”.

Sem mais espaço, sugiro ao leitor que leia este excelente romance e saboreie o ambiente brasileiro do tempo, produto de uma aturada investigação. Com vagar, devagarosamente, saboreando as alegorias e metáforas que se soltam de uma narrativa imaginosa que atravessa um capítulo da vida e obra de António Vieira (Edições Caixa Alta).

Post Scriptum. Talvez seja escusado lembrar que o professor de várias gerações, do ensino primário ao superior, José Pires, é autor de mais romances, de histórias para crianças, poesia e artes plásticas. E que atualmente desempenha as funções de presidente da Junta de Freguesia de Castelo Branco.

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