Ursula von der Leyen decidiu que vamos ter um “kit” de sobrevivência para enfrentar situações catastróficas, sejam de chuva e vento, terra a tremer, ofensivas cibernéticas, ou de guerra, não só a das tarifas que já anda por aí, mas a da guerra guerra, casas em escombros e mortandade a eito, o demónio durante uma quase eternidade.
Desconfiado como estou, era por tempestade de guerra que von der Leyen, deveria ter começado. Os 2, 3 até 5% do PIB destinam-se a armamentar. As invocadas razões de proteção civil são para o inglês (que temos dentro de nós) ver por entre o nevoeiro.
Não podia pensar outra coisa acerca do drone que nos enviou sobre a forma de “kit” - diz a tradução do dicionário que pode ser balde, recipiente para recolha de várias coisas, estojo, conjunto de ferramentas, equipamento de caça e pesca; até pode ser um pequeno violino usado por mestres de dança. E, aqui está o busílis, também pode designar equipamento militar pessoal, exceto armas. “Exceto armas”, garante o dicionário. Como não sei como um “kit” pode anular uma onda de calor, penso logo no pior. Para quê um estojo de sobrevivência? Hum, esta ordem de teor troiquista deixa de fora a cauda de um crocodilo com lágrimas a arder.
Quando recebi este drone sobre a sobrevivência, comecei a ver o filme até lá mais para diante. Era um anúncio para sacar artilharias, cavalarias mais altas, mísseis como aves de rapina a estilhaçar no que avistam. Diz que, nas nossas costas, o António Costa, também está combinado. Que os Russos hão de vir aí numa manhã de nevoeiro, eles que durante mais de três anos ainda têm água pela barba na sua região de Kursk e na que procuram no Baixo Don.
Ná! Isto não está bem contado. Como não desisto de tentar entender, fui ter com homens que andaram de mãos dadas com a guerra. Napoleão foi o primeiro. Ainda usa a juba de imperador. Olhando de alto, mandou-me para as anotações que escreveu enquanto lia “O Príncipe”: “Maquiavel comete uma falta ao fazer-se moralista sobre semelhante matéria. Poderia ele conhecer tão bem como eu o domínio pela força?” Viajei para três séculos antes e mostrei a Maquiavel o que Napoleão escreveu. Riu-se e disse-me que a guerra deve ser expressamente definida, “limitada” e só declarada quando a diplomacia
falha, pois a guerra é uma extensão da política. Concluí que, neste mundo, há muitos mais maquiavélicos do que Maquiavel.
Bati à porta do general Kutuzov, o marechal dos generais da Rússia invadida por Napoleão. Contou que os generais mais novos estavam impacientes. Queriam combates frontais, mas o octagenário, reformado chamado à pressa, cego de um olho em combate, é que sabe o que é saber. Que deambulem pela terra queimada, mas não os deixem sossegar! Não lhes poupem os tornozelos e apontem para os cotovelos! Com dor-de- cotovelo, o Napoleão fica assarapantado e o meu colega, general inverno, resolve o resto.
Enfim, armado com o meu “kit”, fico descansado, sinto-me como se fosse um israelita (salvo seja) que, protegido por vários escudos, tem todas as Gazas e Cisjordânias para demonizar.
Ou seja, quando enfrentar o monstro do ciclone estarei muito confiante; não será como antes de a senhora Leyden me mandar o “kit”. Vem um sismo? A casa pode ir abaixo, mas salvar-me-ei com o embrulho içado numa mão, como se lá estivessem os meus “Lusíadas”. De um tornado nem falo - perguntem aos que começaram a guerra comercial; têm muita experiência. Castigo de Ursula: esses não recebem “kits”!
E se vier a guerra? Se vier, o meu “kit” faz milagres.