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Cata-Ventos: La gente no sabe qué hacer...

Manuel Costa Alves - 14/11/2024 - 9:42

Nos meus tempos de formação profissional confrontámo-nos com a tradução de depressão “cut off”, um fenómeno originado nas camadas mais altas da troposfera, mesmo abaixo da estratosfera, quando a corrente de jato reconstitui a sua fortíssima circulação geral de oeste. Em determinadas condições, desprende-se, para latitudes mais baixas, um núcleo de circulação depressionária que se organiza como gota de ar frio ganhando uma dinâmica própria quando atinge a superfície terrestre. Tentámos uma tradução que não se impôs: “depressão desprendida”. Os nossos colegas espanhóis crismaram-na de “gota fria” e viemos a verificar a preocupação que demonstravam sempre que se gerava uma situação atmosférica com essa tipologia, pois havia ocorrências catastróficas bem memorizadas na sociedade espanhola. Nos últimos tempos, passaram a afinar o quadro do fenómeno designando-o como “Depressión Aislada en Niveles Altos” e daí o acrónimo DANA.

Quando a depressão se posiciona no Atlântico próximo da Península Ibérica, normalmente origina uma sequência de dias com passagens sucessivas, no nosso território, de formações nebulosas de grande desenvolvimento vertical. E se o centro da depressão se posiciona próximo do Golfo de Cádis ou do Levante, como aconteceu no final de outubro, gera uma circulação atmosférica sobre águas mediterrânicas mais quentes do que as atlânticas e pode ocasionar sérios problemas. Tudo depende da temperatura que o ar adquirir em contacto com as águas mediterrânicas. Então, aumenta muito, por evaporação, o conteúdo em vapor de água.

Se a diferença de temperatura do ar entre o nível da superfície terrestre e do topo da depressão for muito grande, como é o caso neste tipo de depressão, a velocidade dos movimentos ascendentes do ar aumenta muito, assim como o processo de condensação, e originam grandes quantidades de água precipitável. Os dados instrumentais obtidos no Mediterrâneo neste verão indicam elevadas temperaturas da água do mar, um mar quase fechado que é atingido pelo aquecimento global num prazo mais curto do que o oceano Atlântico. Provavelmente, as anomalias térmicas positivas ainda nele prevalecentes terão desempenhado um papel decisivo para que as quantidades de água recolhidas atingissem, sobretudo na província de Valência, valores abissais. Em Loris, o udómetro registou 640,8 litros por metro quadrado, em Pedralba 411,8; em Alfarb 382,8, valores cuja esmagadora maioria se registou em 8 horas e em alguns casos em 4.

Está provado que a Autoridade Estatal de Meteorologia emitiu avisos E que a resposta da Proteção Civil valenciana não se traduziu em medidas. Apesar disso, uma testemunha avisava: “La gente no sabe qué hacer en caso de alerta” e este é um problema de fundo que deve colocar-se também em Portugal. A afirmação pode chocar, mas não tenho dúvidas em convocá-la. Se a Proteção Civil valenciana tivesse efetuado o que devia, ter-se-iam evitado muitas ocorrências trágicas, mas a maior parte das pessoas não saberia o que fazer com o alerta. Não possui cultura e prática de proteção civil ao seu nível, nem está organizada para saber como responder. Em Espanha, como em Portugal. E não está por não ser esse o modelo de governação do poder político. Já nem falo noutro problema de fundo que as políticas determinaram: a irracionalidade das intervenções efetuadas ao longo dos tempos nas cidades, nos litorais e nas bacias hidrográficas que exponenciaram as vulnerabilidades a tão intenso episódio de precipitação.

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