É de luz o seu bordado de palavras. Com a mais apurada cristalografia, possui a inteligência orgânica da poesia. Tempera o sedimento das suas águas, arruma as mesas onde as palavras borbulham e deixa iluminuras que atraem a utopia. António Ramos Rosa ensina a trabalhar na casa do poema, ensina a cozinhar, arrumar, fazer a cama, puxar o estore; o texto abre-se sempre em ainda mais dia.
Rebusca nos infinitos tropismos das palavras e calibra caudais, afere meandros e reverberações, tece finíssimos artesanatos densamente povoados com o que as palavras permitem. Até a sombra é feita de luz. É um cientista da poesia. Como quem (me) diz: - Entra e faz vida com a inteligência da poesia! Mesmo que seja apenas escutar “na palavra a festa do silêncio”.
Isto é o que, sinteticamente, encontro neste excelentíssimo poeta, um poeta exigentíssimo na tessitura luminescente e incandescente das palavras com que a trabalha. Leiam, por favor, os quatro poemas que transcrevo a seguir. Quatro poemas entre tantos que podia destacar do corpo de uma obra vastíssima. No centenário do seu nascimento em Faro.
- “Cada árvore é um ser para ser em nós. Cada árvore é um ser para ser em nós / Para ver uma árvore não basta vê-la / A árvore é uma lenta reverência / uma presença reminiscente / uma habitação perdida / e encontrada / À sombra de uma árvore / o tempo já não é o tempo / mas a magia de um instante que começa sem fim / a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas / e de sombras interiores / nós habitamos a árvore com a nossa respiração / com a da árvore / com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses”.
- “Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira. Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira / com os contornos duros das consoantes / com a clara música das vogais / Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons / e apreendê-lo para além do seu sentido / como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo / O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo / será a ágil indolência de sucessivas aberturas / em que veremos as labaredas de um outro sentido / tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras / É assim que lemos não as palavras já formadas / mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula / ao nível físico do seu fluir oceânico”.
- “Não sei se respondo ou se pergunto. Não sei se respondo ou se pergunto. / Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio. / Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra. / Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho. / De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante. / A minha tristeza é a da sede e a da chama. / Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio. / O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono. / Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente. / Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim. / Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido. / Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença. / Não sou a destruição cega nem a esperança impossível. / Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.”
- “O que é um encontro. O que é um encontro / breve e interminável sem um adeus final / um encontro é uma viagem fora do mundo / no mundo que nunca é verdadeiramente real / na fantasia ansiosa das palavras vibrantes / nunca é o que é / entre / o que é e não é / imaginária e vocálica / fora da sintaxe convencional / no interior de uma galáxia do vento / no espaço branco de uma alegria sem termo / no ar das palavras na respiração de uma laranja”.