Segundo Fernando Paulouro Neves, a vasta e diversificada obra de Manuel Cargaleiro procurou sempre “a transparência da luz”, imprimindo-a numa “pintura solar”. O artista nasceu em 16 de março de 1927, em Chão das Servas, concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco e era apaixonado pelas cores e sabores da sua Beira Baixa natal. “Na pintura dele,” escreveu Fernando Paulouro, “há uma coisa fundamental, com um sentido poético muito forte, que é a transparência da luz que ele dá às coisas. Penso que bebeu muito da luz e das matizes da sua terra, à beira do Tejo, as quais levou para a pintura e nunca deixou”. Levou para a pintura e também para a “glorificação da arte da cerâmica” (palavras de Álvaro Siza Vieira), para a azulejaria, para a tapeçaria. E há os registos da sua arte em diversos materiais e locais públicos que, como escreveu uma sua biógrafa, Sonia Loeb, trouxe a “beleza simples das formas e decorações dos potes, bilhas, travessas e objetos populares utilizados para ir buscar água”.
Faleceu com 97 anos, no dia 30 de junho deste ano e a minha cidade, cidade escolhida pelo artista para fixar aqui, em 2005, o seu museu e o vastíssimo acervo artístico da Coleção da Fundação Manuel Cargaleiro, parece não ter consciência do que tem. Não empreendeu verdadeiras iniciativas intramuros abrindo e sustentando a riqueza da obra. Não a socializou na cidade, nem na região e no país, nem a relacionou com a arte que o artista fixou em França e Itália com expressões públicas reconhecidas. Manuel Cargaleiro saiu fisicamente da vida e nada aconteceu na cidade que desse um sinal da importância do que criou. A cidade não compreendeu o valor da sua presença na história da arte. As poucas iniciativas geradas desde a abertura do Museu Cargaleiro não entraram na cidade, não a convocaram, não a povoaram. Não fizeram cultura na cidade e na região. Enquanto tal, a cidade parece não ter tomado consciência do que Cargaleiro lhe deu e da projeção que pode ter sendo uma cidade com tanto de Cargaleiro.
Cargaleiro é o verbo das cores que encontro na sua obra multímoda. Com as palavras redondas das cores nas intimidades das cores e nos seus afazeres de vogais sempre pintando luz. Criou geometrias com luz própria, geometrias que nos habitam com essências de luz. Assim intuí o artista como ele próprio se afirmou: “Pintar a luz. Viver a cor”. Fê-lo em várias línguas da mesma língua com formas e cores do mundo de que gostamos.
Arquitetou geometrias intermináveis de luz poliédrica germinando em murais que acompanham os nossos afazeres. As suas oficinas criaram cerâmicas de vidas duráveis, barros de fogo temperado em olarias tecedeiras de faianças como se também fossem em telas. Assim fui respirando a sua arte de precisar da arte para povoar melhor o mundo.
Entrei em chãos de convivência soalheira, adivinhei formas em polígonos que só ele, entrei em lugares de intimidades natais com topónimos das vidas que nos andámos a fazer. Tentei decifrar “o que o vento [lhe] disse”, folheei o que as suas minas de desenhos expuseram; guaches, gravuras, utensílios, tapeçarias, pinturas, cerâmicas, murais - até “a porta da vizinha” ficou a vibrar renascendo para as nossas mais chegadas beiranidades. Manuel Cargaleiro criou ervas de todas as cores do que via e imaginava nascendo em fontes de luz antiga. Manuel Cargaleiro é uma escola do bem comum da arte para aquecer a vida. Espero que, no futuro, a cidade queira frequentar essa escola.