Em 5 de novembro de 1997, uma depressão com forte ciclogenia produz efeitos catastróficos no concelho de Beja com perda de 11 pessoas. Pela primeira vez, a nossa instituição meteorológica é chamada para entrar no Serviço Nacional de Proteção Civil aonde o primeiro-ministro António Guterres se vai deslocar. Nunca, até então, Meteorologia e Proteção Civil se tinham encontrado. Após verificar a sua incapacidade, em janeiro de 1998, o Governo decide efetuar uma remodelação da organização e das formas e conteúdos da sua intervenção, além da entrada de várias ciências no sistema. É um período entusiasmante para quem participa.
Da experiência de quatro anos em que representei o hoje IPMA na, também hoje, Autoridade Nacional de Proteção Civil, guardo preocupações que julgo não terem obtido resolução e que são decisivas para a evolução da relação entre os dois campos de atividade. Além disso, constituem um desafio para o desenvolvimento do conhecimento meteorológico e das suas respostas operacionais.
Ondas de calor. O sistema de proteção civil não tinha conhecimento deste risco já detetado e estudado por Marinho Falcão, relativamente aos episódios de 1981 e 1991. Reconhecendo que a onda de calor constitui o fenómeno mais mortífero com origem atmosférica, entre 1999 e 2000, Instituto Ricardo Jorge, Proteção Civil e Meteorologia criam um modelo de previsão de excedentes de mortalidade (ÍCARO). O modelo é aplicado, com sucesso, à mortífera onda de calor de 2003 e, tanto quanto posso verificar, a sua aplicação não teve continuidade e, sobretudo, não foi socializado e operacionalizado para orientar as ações preventivas e de socorro dos agentes de proteção civil e na relação com a sociedade. A gestão deste risco resume-se à divulgação de conselhos genéricos e é quase inexistente, enquanto resposta organizada do sistema de Proteção Civil.
Exploração do radar meteorológico. Esperava muito mais da aplicação desta tecnologia no apoio à Proteção Civil. Esperava que se desenvolvesse o processo, prometido como alcançável desde o decénio de 1990, de previsão da evolução nas próximas uma a três horas dos sistemas nebulosos com elevados conteúdos de precipitação. Testada a sua aproximação ao real futuro, a sua modelização garantiria informação em escalas espacial e temporal que mudariam a forma de a Proteção Civil e a sociedade enfrentarem os efeitos de precipitação muito intensa.
Modelização da propagação de incêndios rurais. Também nesta área se desenvolveram modelizações que permitiriam definir, com boa aproximação, a pluma de evolução dos fogos rurais. Com esta capacidade, em fogos com grande velocidade de propagação, as opções de resposta operacional da Proteção Civil teriam outro perfil de organização e de resposta.
Além disso, há 25 anos, as expetativas assumiam avanços muito maiores nas respostas dos modelos de área limitada e dos modelos globais de previsão do 5° ao 9° dia e uma maior aproximação às quantidades reais de precipitação a curto prazo.
Finalmente, com o incremento, ano a ano sempre crescente, das emissões de gases com efeito atmosférico de estufa, julgo que teremos de identificar novas vulnerabilidades geradas por riscos meteorológicos e climáticos cujos patamares de aviso e alerta exigirão alterações. E, como no caso da exigência de estudos de impacto ambiental, acho que devemos enveredar pelo mesmo caminho garantindo estudos de impacto de proteção civil.
Temos muito trabalho pela frente.
(in CEIPC – Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil)