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Cata ventos: (Não) mudando de assunto

Costa Alves - 21/05/2020 - 9:22

Preciso de mudar de assunto. Apetece-me mexer na terra e não lavar as mãos. Desde março que não tenho o prazer de ter mãos livres; mãos libertas do mal que podem dar e receber. Também gostaria de exprimir o desejo de que o verão venha húmido e fresco – sempre poupávamos em infeções e guerras nas praias. E, se quiser chover a sério (o que não é da sua índole), força! Terá a minha complacência, não digo cumplicidade porque na atmosfera não manda quem quer. Para os devidos efeitos de aquecimento global, sabemos quem manda - mais moderadamente agora devido ao arrefecimento de muitas atividades.
E nem quero pensar noutro efeito do tal verão quente que a maioria deseja: florestas a arder. Já viram o que era se acrescentássemos a este pandem(i)ónio a epidemia dos fogos que saltam viralmente do mato para as árvores e destas avançam pelos caminhos de mais fogo? Com contas ainda a ajustar com o que ardeu e matou em 2017 e 2018, não saberíamos aonde mais acudir, estando tão ocupados e preocupados com a gestão destes dramas covidianos.
Também me apetece dizer que, apesar de gostar de ver futebol, não me importo nada que esteja trancado. Pelo menos, aqueles fanáticos recrutados pelos “3 grandes” e pelas televisões deixaram de aparecer a espalharem vírus com os seus furiosos mandamentos. Desafortunadamente, já os antevejo a seringarem os nossos ouvidos daqui a uma semana. Com um ponto em causa na disputa do resto do campeonato, isto vai ser de saltar do confinamento e gritar por socorro.
O negócio da televisão é assim. Não quer distrações. Todos a fazer o mesmo, a ouver o mesmo, a telefalar o mesmo, a mesmar (deixem passar) com as repetitivas palavras estupefacientes do mesmo. Ao contrário do que tento fazer, a televisão não se discute publicamente. Ai de quem o faça! Ai de mim!
Tenho muita dificuldade em acompanhar o discurso televisivo. Por exemplo, a utilização da palavra barreira. Não sei se já notaram. É a barreira dos 4 mil, dos 5 mil, dos 20 mil, dos 21 mil e por aí adiante, seja qual for o parâmetro epidemiológico; e onde. Muito gostam os jornalistas de televisão de saltar esta maratona de barreiras que inventaram. Desde o começo da pandemia, não há telejornal que não o faça; é uma canseira esta caça às barreiras dos números redondos. Não é qualquer valor que serve para esta corrida de obstáculos. Tem de ser redondo. Paciência que é preciso! Se dissessem umas quantas vezes, de vez em quando, enfim. Mas, fórmula única em série, seja qual for o canal? Ficamos contaminados e passamos a andar, também, com mais essa bengala na fala. A televisão é assim e sabe que também nos faz como ela.
E a história do pico? Fartavam-se de trepar à procura do pico. Parece que queriam subir ao pico do Pico na ilha do Pico. Os indicadores epidemiológicos desviaram-se deste desenho e desdenharam da quimera de atingirem linearmente um ponto máximo para, depois, descenderem rapidamente até ao descanso da normalidade no sopé da montanha. Nunca falavam em valor máximo ou ponto máximo da curva. Pico para aqui, pico para ali e, afinal, não se tratava de um monte encimado por um pico. Já se sabia, mas não se dizia que, em confinamento, os indicadores dos efeitos deste vírus não seguem este trilho. Apresentam valores máximos principais e valores máximos secundários percorrendo um planalto longo e rugoso descendendo lentamente. E, só quando era evidente que não havia pico à vista, é que chegaram ao planalto. É muito difícil mudar de assunto.

 

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