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Cata-Ventos: Não sair da cepa torta?

Costa Alves - 20/03/2025 - 9:00

Pois é, estamos em maus lençóis; picados pelo que vemos e ouvimos. Não podemos fugir; enrodilhados cada um na sua bolha, como pescadinha de rabo na boca. É uma espécie de quarentena. Normalizada, prolongadamente persistente, secante. E é se queremos. Queremos o quê? Logo se vê.

Entretanto, os poderes constituídos, continuam a conversar desconversando, ou a desconversar fingindo que conversam, mas a videira não é de boa cepa e a que têm é torta. Nem a querem consertar. Cresce pouco e não se desenvolve conforme pode e deve. Para bem de todos nós, mas o bem de todos nós não tem lugar na maior parte do que dizem e fazem. Querem assim e não conseguimos desatar a teia.

Quando perguntamos porquê, metem as mãos pelos pés e os pés pelas mãos e já não sei onde mora a cabeça. Nós a fazer mais perguntas e eles a tergiversarem, a culpa é do outro que baralhou o tempo das uvas, colheu-as na primavera; ainda a atmosfera estava fria, não fez a poda ou não a fez quando devia. Enfim, cuidado com a nossa saúde mental!

É uma carga de trabalhos ouvi-los. Os ouvidos muitas vezes adormecem, ou tapamo-los, ou deitamo-los fora. Gritarias para aqui, insultos para acolá, os problemas que esperem e, quando não podem esperar, espremem e o vinho mirrou. A cepa não desentorta, a casta está envenenada, não tem conserto e não poderá dar concerto.

Enfim, narrativas lodosas que ensopam tudo e prometem continuar a nadar no pântano. Os hipopótamos lá andam na sua vida, respiram, passeiam, comem os vegetais que a terra lhes estende. Há quem não, pretensos animais racionais – ou não fossem nossos eleitos. Eleitos, hein! Fazem a vida no charco, não vêm a terra e obrigam-nos a assistir sentadinhos, manda quem manda, nas bancadas deste coliseu. Roubam malas, abusam do mais íntimo da inocência, mercadejam com avenças, distribuem bilhetes de ódio, despedem grávidas como se tivessem palha no ventre, vivem do dize-tu-direi-eu, pingue-pongue com bolas de palavras, como se a verdade não tivesse luz própria e não proviesse do saber do conhecer. Enfim, truques de pouca escola, pobre ilusionismo e fraca inteligência - ainda não utilizam a artificial e, quando a adotarem, é que vai ser. Não há racionalidade que os faça abandonar o palco das perceções de perceções. Nem sequer usam os periscópios. Se fosse desfiar o rosário, ainda amanhã aqui estava.

Recostados nas arquibancadas mediáticas, vemos, ouvimos e lemos, uns ignoram outros inquietam-se e lá vamos cada um por seu lado depositar o parecer do nosso arreganhado parecer numa caixa a que chamam urna - o que deveria arrepiar-nos. Repetimos e repetimo-nos e nunca passamos do sopé da grande montanha. Suplícios do destino, diria Sísifo e, até, Tântalo. A atração pelo pântano é a de quem comanda. De quem acha que o presente não encontra nada de aproveitável no passado. E, quanto ao futuro, vou ali já venho, como se diz nesta nossa Beira à beira de ficar sem telhas.

Sei que não querem sair nem, muito menos, saber da cepa torta. Já ando por cá há muito tempo e conheço-os de ginjeira. Limitam-se a espalhar areias de conversa fiada, até sobre a verdade demonstrada. O negacionismo está aí atrapalhando a história, a ciência, rasurando alguma da civilização adquirida. Em todas as bolhas se faz isso e a democracia atapetada de bolhas apressa-se a empobrecer ou a rebentar. Em vez de a aprofundarem, degradam-na.

Querem continuar como dantes? Cá por mim, soldado raso, nem com quartel-general em Abrantes. Vá lá! Saiam da cepa torta!

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