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Cata Ventos: Novo normal, velho normal?

Costa Alves - 10/09/2020 - 10:50

Pois é, leitor, não há retoma que nos valha. Antigamente, chegava setembro e, solicitamente acompanhados pelas televisões, os partidos faziam grandes festas soprando fanfarras que prometiam excelentes vidas novas para o que viria depois. Era, como diziam, a “rentrée”. O vocábulo sobejou da demorada influência francófona que inspirava suspiros pelos ares socialíticos da Riviera francesa. Na época, não seria de bom tom usarem uma palavra em português para uma revigorante saída das ninharias da “silly season”, como passaram a classificar o período de férias na fase seguinte de influência anglófona. “Rentrée”? Se fosse hoje, o galo cantaria como se tivesse nascido na América. 
Enfim, tempo que, agora, parece morar longe, muito perto de cascos de rolha. Assediados por sombrias atmosferas covidianas, já não distinguimos ânimo de desânimo e o astral não tem muito por onde capinar. As horoscopias foram chão que deu uvas e a conversa sobre levantar o astral também perdeu quase todo o espaço nas ruas das nossas amarguras. Com tantos riscos a borboletearem sobre as nossas cabeças, as superstições já não rendem.
O novo normal é um sempre em pé com pés de plasticina. Estamos todos alerta, de pé atrás, desconfiadíssimos, em pé ante pé a ver se ainda teremos pé entre as vagas que hão de vir. Um olho na pandemia, o outro na gripe. O diabo é que, como reza o ditado, “a doença vem a cavalo e vai a pé”.
As voltas que o mundo dá. Há décadas, cumprimentávamo-nos com as mãos. E selávamos a palavra dada com um aperto de mão (também dizíamos mãozada). Era compromisso firmado pela confiança na honradez. Agora, clica-se para o mundo e ninguém fica imune aos estilhaços de uma epidemia ou, até, de uma demoníaca explosão no porto de Beirute que faz lembrar os cogumelos de Hiroxima e Nagasáqui de há 75 anos (“atrás”? Qual é a dúvida?). A pandemia e as alterações climáticas são exemplos maiores do mal que andamos a fazer ao mundo da nossa casa comum, Beirute também o é e a Síria e o Iraque e o Iémene, e o que acontece nos Curdistões e na Palestina e no oceano Ártico e na Amazónia e … será melhor parar.
Ora bem, abandonada a época da mãozada, veio a convenção de beijinhos dos varões às senhoras e, vá lá, como sou masculino, fiquei dispensado do meu género. A metade feminina é que não tinha outra saída. Agora, fugimos de qualquer toque; apenas abrimos uma exceção aos cotovelos. Cumprimentamo-nos com os cotovelos e lá se vão as antigas aceções de discutir e disputar (e governar) às cotoveladas. 
E, que tristeza! Já nem podemos falar pelos cotovelos, hábito que se vai perdendo nas conversas de soalheiro que, nem no café, podemos ter descontraidamente. Apesar disso, seguramente que ainda haverá dor-de-cotovelo; até quando nos saudamos rotineiramente cotovelo com cotovelo. É dor muito incrustada na nossa condição. Não se apaga nem se esquece. Tem o selo inapagável da inveja.
Enfim, sem baixar demasiado a guarda, como agora também se diz e repete, suspiramos por um novo normal que deixe de ser novo e regresse às fortalezas do antigo. Como se nada se tivesse passado, nem houvesse causas no nosso modo de estar que determinaram o que nos está a acontecer. Diz Sérgio Godinho em canção aplicada à situação: “no novo normal nunca são contas feitas/ acordaste informado e ignorante te deitas.”
O antigo normal conduziu-nos a este caos de crises pandémica, climática, financeira, de desigualdade, precariedade e pobreza. E agora, novo normal? Para onde vais?

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