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Cata-Ventos: O cerco da banalidade

Costa Alves - 15/05/2025 - 16:12

Leio cartazes à minha volta: “O futuro é já. Pronto para Portugal”. Podia dizer: o amanhã começa agora; estou pronto. Passo os olhos por mais alguns e já não sei onde mora o grau zero da banalidade. Senão veja: “Portugal não pode parar.” A legendária lapalissiana aprovaria com muitas palmas. Não precisavam de contratar agências de comunicação para emoldurar a pílula da banalização. Qualquer um assinaria por baixo e por todos os lados. Leio: “Deem-me uma oportunidade” e nem quero lembrar-me de um cartaz politicamente pornográfico que a “oportunidade” manipulou. Ou então: “Deixem-me trabalhar” – tantas vezes ouvi o estribilho de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana. Enfim, slóganes (posso aportuguesar?) de trazer por casa, de chover no molhado, de meia bola e força - ai o nosso falar, de olhos nos olhos, de pão-pão, queijo-queijo!

Enfim, estamos cercados por pasmaceiras de entristecer, discos gastos e rasurados, cassetes altifalantes, grafonolas grandiloquentes robotizadas que diminuem capacidades do nosso cérebro, marchinhas de enganar preocupações e embalar tolices com fandangos de arruadar. Leio e arrependo-me de ler. Querem que a democracia seja como este assim. Tresleio tentando ler às avessas e nada. Então, desleio; passo e fecho os olhos. A meu lado, há quem se sinta com a alma contraída ao ver este exibicionismo que, apesar do ridículo, as agências de comunicação contratadas ainda colhem. E nem falo das meticulosas infiltrações de um dos campos da Justiça que transforma escutas e parágrafos em explosivos cartazes de intervenção política.

Nenhuma mensagem se fixa, nada me acolhe, nada se acerca de mim no que ali está pregado no ar do vento eleitoralista. Nenhum pensamento, nenhuma visão de perto, nenhum horizonte. Estreitezas, palavras afiadas em laboratórios de vender lugares-comuns e mercadorias mais do que desgastadas. Podiam ter um mínimo de estética nesta demanda de nos cativar, mas não; resta-nos bocejar, cativadamente cativos. E ética? Ética pessoal, profissional, cívica, política - que é isso?

E os cartazes na televisão? Aí, as palavras têm movimento. E o rodopio do dize-tu-direi-eu dá para comentadores anotarem o melhor e o pior de um de(com)bate onde se

disputa uma partida de pingue-pongue com a bola das palavras. Tudo, ainda, em forma de (vídeo)cartazes com palavras a desfilarem como se estivessem em rodapé. Quanto mais banalidade e, sobretudo, mais habilidade no uso das raquetes, mais cresce quem não quer democracia e, acima de tudo, quem não quer mais democracia. Sim, mais democracia contra a cada vez menos democracia que desejam.

Não querem mudar. Forram as ruas e criam um ambiente tão concentracionário como o que as telejornalidades fabricam. Percebe-se à légua o que querem com estes artifícios de inspiração político-comercial ensopada por técnicas de banha-da-cobra, poses regateiras, efeitos hipnóticos, autoelogios, imodéstias e verborreias pré-fabricadas. Tresandam a fumo de secretos estados-maiores.

Espero, continuo a esperar, por uma democracia mais vasta e profunda. Muito mais culta e sábia, mais genuinamente comunicativa, mais sincera, franca, desmanipuladora, transparente (transparentemente transparente), muito mais desperta, mais qualificada, muitíssimo mais humanizada, deontológica, ética, fraterna, futurizante, imaginativa, espontaneamente criadora e solidária; abrilmente fresca e ativa.

Espero, continuo a esperar; não quero desesperar.

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