Já o escrevi aqui; a cidade integrou e valorizou os muitos chafarizes que também povoavam quintas em redor. A exemplo dos coretos, os chafarizes são registos (alguns belíssimos) da vida de um tempo mudado, mas permanecem como memória de funções em torno da água numa cidade que tanto precisa de a ver, ouvir e comunicar com ela.
Valorizou-os (grande parte foi construída no século XIX), mas continua a desprezar o primeiro chafariz edificado fora das muralhas, precisamente no século XVI. É uma obra de interesse histórico-cultural e, apesar de muitas promessas, continua desenquadrado e a deteriorar-se como uma (tolerada) ruína de um passado qualquer. Já sabemos como são os Governos, nacionais ou locais. Muitas das suas agitações de prometer não vêm a fazer. Bem sabemos, de experiências feitas, que a situação ruinosa do chafariz de S. Marcos não merece que os tempos eleitorais se ocupem com ela. Preferem colocar uns cartazes muito grandes a tapar-nos a vista cansada com o tamanho garrafal de uma fotografia legendada por um slôgane. E pronto, não se fala mais nisso.
No entanto, em quatro anos, por vezes temos sorte. Na verdade, numa cidade que tanto anuncia o seu património quinhentista (embora, em língua inglesa, as placas persistam em garantir que pertencem ao quatrocentista século XV), este chafariz quinhentista observou anúncios de requalificação que incluíam a sua deslocação para lugar apropriado ao que de histórico e cultural representa. A última promessa referenciava a sua colocação no centro de um jardim a construir em lugar fronteiro ao Largo de S. Marcos. Mas, embora com projeto de arquitetura elaborado, o anunciado jardim foi transformado, sem justificação pública, em … parque de estacionamento.
Este Imóvel de Interesse Público, assim classificado pelo mesmo Decreto n.º 95/78, de 12-09-1978 que o associou, na mesma avaliação, à igreja de S. Miguel (a Sé) e ao Palácio dos Viscondes de Portalegre (onde esteve o Governo Civil), manteve-se onde estava: em ruína e pessimamente enquadrado por intervenções antiurbanísticas. Nem sequer exibe a habitual placa identificadora do monumento histórico que ali está a resistir aos tempos do desinteresse e da incúria. Placa identificadora que a cidade exibe em vários outros edificados com valor patrimonial de menor dimensão e que, em vários casos, merecem uma redação (até cientificamente) muito mais cuidada.
Segundo as historiadoras Ana Cristina Leite e Catarina Oliveira, o Chafariz de S. Marcos possui estrutura maneirista e um programa decorativo que apresenta elementos inspirados na arquitetura manuelina. Também regista relevos gravados no espaldar com a representação do escudo nacional, ladeado à direita pela esfera armilar e à esquerda por flores-de-lis sob a Cruz de Cristo.
Em finais do século XVI, havia já necessidade, na então vila de Castelo Branco, de efetuar um melhor aproveitamento das nascentes de água e dos poços existentes. Em meados do século XIX, a fonte já não era utilizada para o abastecimento da população, pois (cito Porfírio Silva, 1853 – sem atualização ortográfica) “a sua água, que sae por uma só bica, é salobra e pouco aceiada, e por isso só serve para usos muito ordinarios, e para os gados beberem. Tem a nascente na encosta do Castello, d’onde corre por um canno subterraneo até ao seu destino.”
A cidade terá de saber o que quer do destino deste seu (assim reconhecido) Imóvel de Interesse Público. Chega de estar como está.
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