Cata Ventos: O Furacão (de) Trump
Costa Alves - 26/09/2019 - 9:22
Bem sei que estamos fartos da presidência de Trump, mas não posso deixar de contar mais uma das suas façanhas pelos territórios da “verdade alternativa”. Desta vez, meteu-se com a minha profissão. Já o tinha feito ao negar o aquecimento global e as alterações climáticas induzidas. Agora meteu-se com a evolução do ciclone tropical “Dorian” que, como sabem, devastou as Bahamas e causou problemas nos EUA.
No dia 1 de setembro, afirma, sem base para o fazer e contra o que era previsto pelo centro de vigilância de furacões dos EUA, que o Estado do Alabama iria ser “atingido, com mais força do que previamente tinha sido antecipado”, pelo furacão “Dorian”.
Poucas horas depois, a administração federal do oceano e da atmosfera (NOAA) difunde uma diretiva interna a proibir os meteorologistas de emitirem “qualquer opinião” sobre as palavras do presidente. Estava em causa o alarme produzido no Estado de Alabama pela declaração de Trump que, se fosse cientificamente credível, obrigava a respostas de emergência de proteção civil naquele território.
Inundado de chamadas telefónicas de cidadãos do Alabama preocupados com a mensagem de Trump, o serviço meteorológico estadual do Alabama publica uma declaração a desmentir o presidente dos EUA, afirmando taxativamente que o Alabama “não sofrerá qualquer impacto do furacão”.
Três dias depois, a direção da NOAA envia nova mensagem avisando os meteorologistas de que não podem comentar a apresentação televisiva de Trump mostrando um mapa (de 29 de agosto) em que introduzia uma linha, inscrita manualmente, abrangendo a parte sueste do Alabama; linha que não constava na previsão de evolução da tempestade. Fazia isto servindo-se de um mapa, publicado cinco dias antes, em que era apresentada a pluma da probabilidade de evolução numa fase em que o ciclone tropical “Dorian” ainda evoluía a sueste das Bahamas. A adulteração era grosseira e saltava à vista. A imprensa dos EUA não encontra explicação para esta inadmissível intromissão do presidente numa esfera técnico-científica com regras de trabalho respeitadas pelos poderes políticos.
Sob anonimato, por medo de represálias, um meteorologista confessa ao diário Washington Post: “É a primeira vez que me sinto pressionado pela hierarquia para não dizer a verdadeira previsão”. Implicitamente, insurge-se contra a violação de normas de ética e deontologia profissional no âmbito da relação entre a meteorologia e a proteção civil: “Uma das coisas que aprendemos é a dissipar rumores imprecisos, que era o que estava a acontecer”. E conclui sustentando o que o serviço meteorológico do Alabama fizera: “uma previsão; exatamente aquilo que é pago para fazer”.
“Fico sem palavras”, confessa, por outro lado, um membro da direção de uma associação de cientistas. “Se politizarmos a meteorologia, o que sobra para politizar? Estamos a assistir a este tipo de pressão sobre os cientistas em todo o governo e é uma tendência que vem aumentando.”
Esta preocupação por intromissões do presidente Trump não é nova. Em 2018, uma sondagem a cientistas de 16 agências federais desvendou a existência de um ambiente de medo e autocensura. Ambiente que resulta de constrangimentos impostos pelo governo federal que chega a rasurar provas científicas por conveniência ou perversão política.
Muitas vezes, os governantes escondem os meios para atingir os fins. Trump, vai mais longe. Banaliza, manipula, adultera dados e factos, à vista de todos. Enfim, há eleitores que votam em tipos assim. E ainda dizem que o povo é sábio.
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