Há muito que damos como adquirido o principal mecanismo desencadeante do aquecimento global. Ou seja, o aumento fortíssimo sempre em crescendo, desde o início da recuperação económica após a II Guerra Mundial, das emissões de gases com efeito atmosférico de estufa. Esse aumento gera aquecimento que produz mais aquecimento por, entre outros causas, diminuir a área coberta por água no estado sólido – a água no estado sólido é um forte refletor da energia solar nela incidente. Como resposta, o aumento da superfície ocupada por água no estado líquido produz uma forte diminuição da energia refletida passando a armazená-la. Este efeito mais-mais está igualmente presente em qualquer fase de glaciação – neste caso, arrefecimento gera mais arrefecimento devido, principalmente, ao aumento da área ocupada por água no estado sólido.
Não temos outra maneira de contrariar este mecanismo retroativo de aquecimento que provoca mais aquecimento, senão inverter o sentido da causa que lhe dá origem. Isto é: diminuir drasticamente o nível das emissões de gases com efeito de estufa. Estamos a 20 e poucos anos de atingir o limite crítico de aumento de 2º C da temperatura média global, se continuarmos com incrementos anuais das emissões superiores a 2 partes por milhão (ppm) em volume de ar. No final do ano passado, atingimos o valor de 408 ppm da concentração de gases com efeito de estufa e o nível crítico é de 450. O aceitável seria de 350.
Este mecanismo físico de retroação, ou retroalimentação (também o designam por “feed back”) é transponível para a mudança social que conduziu ao despovoamento da maior parte do território concentrando pessoas e atividades em pequenas áreas junto ao mar. Despovoamento gera mais despovoamento provocando concentrações humanas e de atividades sempre crescentes nos locais recetores e gerando, também neles, diversos tipos de irracionalidade nas formas de estar, produzir e consumir.
Só temos uma saída: uma estratégia de toda a sociedade para percorrer um caminho que reponha equilíbrio (outro) onde a desordem continua a crescer. Como no caso do aquecimento global, em que a causa é também (essencialmente) antropogénica, teremos de passar a estar de outra maneira no território. Teremos de provocar um movimento que origine repovoamento, reativação de atividades e ativação de novas, apoio a aldeias que podem sobreviver, reordenamento do território e das suas funções.
Esta mudança terá de ser equacionada na fase em que nos encontramos de transição para outra configuração climática. Uma fase de transição que comporta riscos novos e novas vulnerabilidades. Precisámos de ter sido atravessados pelas situações extremas que nos atingiram desde junho, para conseguirmos ver para crer em alterações climáticas e verificar que é no Interior que ocorrem os efeitos mais nefastos.
E devemos recordar que não houve sinceridade nas promessas que fizeram em 2003 (outro ano de horror) e noutros anos em que ocorreram situações catastróficas remetidas rotineiramente para o mais fundo do esquecimento. Mas, agora, tem que ser. Estas desgraças fizeram o trabalho que as ciências andaram a fazer, desde 1992, para conseguir que as consciências dos decisores se abrissem - em todos os níveis: da cidadania à governação; sobretudo da governação.
Teremos, então, de equacionar a evolução da nossa sociedade e do seu território com os condicionamentos impostos pelo comportamento da atmosfera e do oceano.
[email protected]