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Cata ventos: O verão de S. Martinho

Costa Alves - 17/11/2022 - 10:23

No nosso padrão climático, dias antes do dia de São Martinho, o anticiclone dos Açores migra temporariamente para nordeste e posiciona-se durante vários dias a noroeste do Cabo Finisterra. Determina, então, as condições meteorológicas na Península Ibérica e no sul de França. Falo de uma frequência elevada de ocorrências, pois, como sabemos, toda a regra tem exceção e, neste caso, dois em cada dez anos sê-lo-ão.
“No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho”, assim resume o adagiário de Portugal Continental a pausa de vários dias de sol entre o tempo variável de outubro (umas vezes quente e seco, outras com aguaceiros fortes que têm aumentado de frequência e intensidade) e o inverno natural que virá a seguir.
Embora o dia 11 de novembro seja referencial, não é caso para o levarmos milimetricamente à letra. Segundo outro ditado, o Verão de S. Martinho começa no Todos-os-Santos, precisamente quando, com “novembro à porta, geada na horta”. Há um ou outro ano assim.
Formam-se (não “caem”) as primeiras geadas em noites frias e calmas de estrelas e é altura de aproveitar as tardes convidativas para matar o porco e, à noite, ir à adega provar o vinho. O adagiário popular constituiu-se como o corpo comum de saberes meteorológicos até que a meteorologia científica se impôs socialmente na segunda metade do século XX.
Por seu lado, o adagiário do sudoeste francês consagra as mesmas interpretações e os mesmos rituais. É, também, taxativo sobre o seu início (“À la Toussaint commence l’été de la Saint-Martin”) e sobre as práticas em seu redor: “Pour la Saint-Martin, tue ton porc et gôute ton vin”.
Pelo contrário, no arquipélago açoriano, com o anticiclone afastado da sua posição média nesta altura do ano, reza o ditado regional, “se o Inverno não erra o seu caminho, cá virá no S. Martinho” - condições atmosféricas opostas às que predominam na Península Ibérica.
O S. Martinho que empresta o nome a esta curta e saborosa recorrência quase estival, terá morrido em 8 de novembro de 397. Reza a lenda que, como faleceu em lugar afastado de Tours, onde era bispo e se realizaria o funeral, a viagem começou em condições penosas de muita chuva que logo evoluíram para sol resplandecente e noites de estrelas. Presumivelmente, após a passagem de um sistema frontal, o anticiclone dos Açores terá imposto a sua ação dissipadora de condições para chuva. No século IV, a atmosfera funcionaria com padrões climáticos próximos dos atuais e, sendo assim, este episódio de chuva seria anómalo.
A recidiva estival, que consagra o dia do padroeiro, é também lendariamente atribuída à dádiva de metade da sua capa a um pobre seminu que o aborda, certo dia, acossado pelo vento e pela neve. Prosseguindo caminho, subitamente vê a tempestade amainar, o céu descobrir-se e, como refere Ramalho Ortigão, “um sol de estio acariciante e resplandecente inundou a terra de alegria”.
Este ano não tivemos verão de S. Martinho. Os poucos dias soalheiros foram produzidos por influência anticiclónica muito distante da sua posição de verão de S. Martinho. Ainda não podemos prever se, no quadro do aquecimento global da atualidade, haverá alteração do posicionamento do anticiclone dos Açores nesta altura do ano. A acontecer, será lenta e processar-se-á através da migração para norte da sua posição média que determinará a diminuição da frequência de passagens de superfícies frontais pelo território da Península Ibérica e, por consequência, originará menor disponibilidade de água da precipitação.

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