"Perdoa-me, folha seca, / não posso cuidar de ti (…) Tu és folha de outono / voante pelo jardim”, assim sintetizava Cecília Meireles o que o outono faz e nos traz e dá. O ar diferente, um novo ciclo, a pele verde da vida a colorir-se matizando-se multicolorida, maturadamente definhando. Cansado de calores que acutilavam, há um mês já o desejava.
Mário Quintana pergunta-se: “Uma borboleta amarela? / Ou uma folha seca / Que se desprendeu e não quis pousar?” E o próprio Fernando Pessoa, ortónimo, confidencia: “Uma névoa de Outono o ar raro vela, / Cores de meia-cor pairam no céu.”
Miguel Torga entra numa “Tarde pintada / Por não sei que pintor. / Nunca vi tanta cor / Tão colorida.” E Paul Verlaine, musicalmente, compõe sobre “Os soluços graves / Dos violinos suaves / Do outono”.
O Ricardo Reis de Fernando Pessoa partilha nas suas “Odes” a simbologia da evolução da vida que o outono encena: “Quando, Lídia, vier o nosso Outono / Com o Inverno que há nele, reservemos / Um pensamento, não para a futura / Primavera, que é de outrem, / Nem para o Estio, de quem somos mortos, / Senão para o que fica do que passa - / O amarelo actual que as folhas vivem / E as torna diferentes.”
Eugénio de Andrade pressente: “O outono vem vindo, chegam melancolias, / cavam fundo no corpo, / instalam-se nas fendas; às vezes / por aí ficam com a chuva / apodrecendo”. Então, “Deixa-me só, vegetal e só, / correndo como rio de folhas / para a noite onde a mais bela aventura / se escreve exactamente sem nenhuma letra.”
António Salvado respira o “Outono que se avizinha / modulante vacilante: / o sol parece uma rima / com outras rimas toantes”. “Modulante vacilante” regressa “o dulçor da friagem”, deambula a cegonha que, mais adiante, bem passado o verão de São Martinho, “sem agasalho aceita a neve o vento / o granizo o calor tudo é conforto / à solidão do céu acompanhada”. No seu livro “Outono”, uma edição nas línguas portuguesa, castelhana e japonesa, António Salvado, formula a pergunta inicial que, assente nas caraterísticas da estação, interroga duvidosamente a subsistência de “verdes ilusões”, quando o ambiente geral da vida pressupõe o seu definhamento: “Outono. Como restam / ainda nesta árvore / as verdes ilusões?”
Rainer Maria Rilke resume o que se passará em qualquer outono que virá: “Senhor, foi um verão imenso: é hora. / Estende as tuas sombras nos relógios / de sol e solta os ventos prado afora. / Instiga a sazonarem, com dois dias / a mais de sul, as frutas que, tardias, / conduzes rumo à plenitude, e apura, / no vinho denso, a última doçura. / Quem não tem lar já não terá; quem mora / sozinho há de velar e ler sozinho, / escrever longas cartas e, a caminho / de nada, há de trilhar ruas agora, / enquanto as folhas caem em torvelinho.”
Pela minha parte, tenho sempre saudades do outono que entra quando as nuvens começam a florescer e os insetos esquecem os dialetos vorazes do verão. Recordo às aves que as folhas também sabem voar e fazem luz nas florestas do chão. Que há regatos de nuvem nas asas do olhar. Que há cores novas transumantes nas abóbadas do sol. No outono tenho de estar mais vivo. Tenho de atravessar os claustros onde se aninham recolhimentos.
Com a poesia de Ruy Belo termino, sabendo que “Mais uma vez é preciso / reaprender o outono - / todos nós regressamos ao teu / inesgotável rosto / Emergem do asfalto aquelas / inacreditáveis crianças / e tudo incorrigivelmente principia / Já na rua se não cruzam / olhos como armas / Recebe-nos de novo o coração // E sabe deus a minha humana mão”.
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